sábado, julho 16, 2005

Entrega

A verdade é que me tenho sentido muito mal. Mesmo muito mal! Não entendo o que se passa comigo. Estarei a perder o resto de brio e moral que habitavam em mim? Eu não tenho culpa. Esforço-me ao máximo mas, parece que algo rompe em mim como um grito estridente na noite. O que me está a acontecer? Fui ao psiquiatra e ele disse que é perfeitamente normal e que não tenho nada com que me preocupar. Estão todos loucos? Normal? É normal?
A minha cabeça gira e torna a girar. Tento aceitar como algo natural que é comum a todas as pessoas mas, é tão estranho e bizarro. Nunca passei por tal! Tento esconder ao máximo dele para que não me ache louca. Tenho vergonha do que possa pensar de mim. São desejos que disparam instantaneamente. São mesmo assustadores. Uma vontade imensa de copular obscenamente. Se eu nem em ocasiões normais senti tanta sede carnal, qual será a razão de tudo ter disparado justamente agora que não posso? É que não posso mesmo! Não me importa o que dizem! Gritem e afirmem que é normal pois para mim não é! Lutarei até aos confins da minha alma para aguentar esta sedução pela tentação. Não me vencerá!
Confesso que não vou aguentar. É demasiado forte… A luta é injusta porque eu estou muito indefesa e o ataque é feroz. Que raiva da natureza e de todos os seus jogos biológicos. Eu tenho que me mentalizar que agora sou duas vidas numa. Eu agora transporto alguém comigo. Sou responsável por essa pessoa.Hoje sucumbi. Um homem aproximou-se de mim no fim do almoço quando repousava sentada num banco do centro. Meteu conversa com jeitinho e começou a dar a entender o interesse. Eu não estou bem… Queria tanto insultá-lo de tudo e chamar-lhe de pervertido e tarado sexual mas eu estava possuída por ele. A vontade era tanta que eu nem pensei em mais nada. Devagarinho conduziu-me à casa de banho e eu fui com um sorriso devasso. Sem ninguém ver, satisfez-se e satisfez o meu corpo. Chorei durante todo o tempo. Ali estava eu, mulher casada, a ser infiel pela primeira vez, manipulada por um desconhecido o qual não teve que se esforçar minimamente para conseguir a minha entrega. O meu corpo monumental desconchavava-se no ar com aquela força de movimentos. As lágrimas queriam limpar a minha vergonha e humilhação. Atingi o limite da minha podridão humana. Eu nunca deveria ter deixado… Grávida de oito meses… Ele entrava agora por mim a dentro, sôfrego nas suas fantasias, feliz da vida por receber tal manjar dos deuses. Usava as entradas que queria. Até isso… Até o cantinho melhor guardado por mim, sempre desejado pelo meu marido e que sempre lhe recusei, até esse lhe entreguei. Lamentava-me em dores mas nada podia fazer senão apagar aquele fogo que me consumia há meses. Nem o respeito pelo meu filho impediu tal desgraça. Ele acabou dentro de mim, olhou para mim perdida no choro e sorrindo disse, gozando, que ao menos não corria o risco de engravidar por já estar… Que humilhação e pior que tudo, ter adorado aquela depravação e cedência corporal. Ele pediu para que o limpasse com a boca e forçou-me a agradecer pelo seu esforço. E eu assim o fiz. Ele saiu e fechou a porta. Ali fiquei horas e horas perdida. Não fui trabalhar. Saí dali passadas umas horas, com o vestido um bocado rasgado e sujo. Os homens olharam estupefactos para mim, grávida, numa casa de banho masculina. Olhei para mim no espelho e vi o cabelo despenteado, o vestido rompido e a cara pegajosa e envernizada. Senti-me viva. Sorri por ter ali deixado qualquer valor que perdurava da minha consciência. Cheguei e nem me lavei. Quis deixar todas as provas do momento perdurarem em mim. Ele chegou passado um bocadinho e fez me festas, todo contente, e eu sorri para ele. Pobre inocente e ingénuo. A resistir às suas vontades há tanto tempo por amor a mim e ao nosso filho. Se algum dia pudesse imaginar, que faria ele? Nem quero pensar. Fica a ser o segredo mais obscuro que alguma vez tive.

quinta-feira, julho 07, 2005

Horário

04:17 O céu está limpo e corre uma brisa amena. As ondas batem suaves nas grandes pedras. Não avisto ninguém. Um carro ou outro passa lançado de longe a longe.
05:17 Continua tudo calmo. Está mais fresco.
05:28 Aproxima-se um grupo de adolescentes bêbedos. Passam por mim animados. Permaneço imóvel.
05:49 Uma ratazana passa aos meus pés. É enorme.
06:11 Começa a aclarar. O negro azulão perde a guerra aos tons cinzento alaranjado. A padaria da esquina já abriu. Algumas velhotas já circulam pela rua.
06:29 Um cão castanho médio urinou na jante frontal direita da minha carrinha. Já vejo o sol.
06:35 Uma rapariga com cabelo castanho claro pintado, um metro e setenta, sessenta e cinco quilogramas, olhos castanhos, um sinal forte no pescoço, camisola vermelha e calças brancas passeia um pastor alemão com coleira vermelha e trela verde-escuro. Olhou para mim e desviou o olhar rapidamente. O tráfego rodoviário aumentou consideravelmente.
07:02 Uma gaivota pousou perto e ali parou. Com um gesto bruto afastei-a.
07:05 Estou com altos níveis de ansiedade. Olho desesperado para o vazio à procura do sossego para a sedenta alma. Nada… A força cresce exponencialmente em mim. A atenção redobra intercalada com monótonas paragens cogitares. Estou calmo. Demasiado calmo…
07:31 Um rapazito, sentado perto de mim, enquanto a mãe fala com uma amiga, não pára de pôr musicas irritantes a tocar no telemóvel. Irrita-me tumultuosamente. Afasto-me rapidamente. Não estou em condições de suportar testes à paciência. Dói-me o rabo e as costas de ter ficado ali sentado três horas.
07:35 Está fresco. O mar está agradável. Imagino como seria o mar sem ondas, condenado a uma paralisia crónica. Corto uma rosa rosa vulgar. Amarfanho-a e as pétalas separam-se do cálice. Sinto o cheiro agradável, abro a mão e sacudo-a rapidamente ao ver uma bicha-cadela que estaria certamente entre as pétalas.
07:55 Estou muito carente e instável. As sensações bailam em mim como um barco, em mar alto, num dia de tempestade. Olho cabisbaixo para o chão cimentado irregularmente. Horrível esta sensação de nada. No telemóvel vejo número por número da lista. Desconheço todas estas pessoas. Preciso rapidamente de uma dose de carinho puro para dissipar o mal crescente em mim.
09:47 Um casal de namorados passa por mim. Ejaculam felicidade e harmonia. Ela cheira muito bem. Tem uma camisa amarela finamente translúcida e um soutien negro visível. Erro crasso. No máximo tolerar-se-ia um soutien branco. Saia de ganga negra. Cuecas de algodão rosa bebé. Chinelos. Óculos DG. Cabelo castanho unicamente vulgar. Olhos castanhos vivazes. Ele é um homem. Dou meia volta e sigo-os.
10:01 Pararam numa esplanada. Sentei-me a três mesas de distância. Ela pediu uma garrafa de água fresca. Ele pediu uma aguardente e um café e pegou no jornal desportivo abandonado na mesa ao lado. Ela olha para ele pedindo atenção silenciosamente. Ele nem repara nela e mantém a concentração no jornal.
10:03 Peço um copo de leite morno com groselha.
10:05 Ele da maneira que bebe demonstra ser um apreciador. Tem aspecto de estar bem na vida. Fico a olhar para eles. Ela tem entre vinte cinco a vinte e sete anos e ele aparenta ser mais velho. Induzo que não são casados. Leio os olhos dela. Ela sente-se protegida por ele. Tem dúvidas que ele goste dela. Precisa de mais afecto e atenção. Levantam-se e seguem caminho. Ele coloca o braço à volta dela. Sigo-os.
10:23 Chegam a um opel astra negro de matrícula 25-82-JI. Entram e desaparecem da minha vista. O mar está muito calmo. A temperatura aqueceu.
12:59 Encontro a minha carrinha. É linda. Totalmente negra exceptuando as matrículas e os espelhos retrovisores. Todos os vidros incluindo os dos faróis são fumados. É uma mancha negra que se move na estrada. Adoro-a.
13:22 Adormeço.
20:19 Acordo. Vou até à padaria comer qualquer coisa.
22:11 Chego ao pavilhão abandonado da minha antiga fábrica de meias desportivas. Tiro a rebarbadora e a máquina de soldar da mala. Começo o trabalho.
07:07 Trabalhei toda à noite. Está tudo pronto. Estou exausto. Tomo um banho.
07:39 É domingo. Dia de trabalhar voluntariamente. De manhã no centro oncológico e de tarde na unidade de queimados. As crianças são engraçadas. Para elas tudo é fácil. A racionalidade dos adultos estraga tudo. As vezes perguntam-me a razão para eu ter cabelo…
18:01 Cheguei a casa. Estou instalado na minha poltrona a comer gelado. Estive o dia todo a fazer gelatina para os miúdos.
18:29 Adormeço profundamente.
22:41 Acordo e vejo a roupa toda suja do gelado que acabou por cair por ter adormecido com a taça na mão. Arrasto-me até à cama. Adormeço instantaneamente.
06:57 Passeio pelo jardim. Como habitualmente, toco em todos os troncos de árvore lembrando-as que ainda não as esqueci.
09:16 Vou ter com o meu velho colega de escola que trabalha nas finanças. Explico-lhe que no fim-de-semana vi uma amiga que tinha perdido no tempo, ao longe, dentro de um carro do qual só tive tempo de memorizar a matrícula. Insisti que era importantíssimo revelar-me a morada do dono do carro pois precisava encontrar-me com ela. Renitente, deferiu. Com um abraço, despedi-me dele, satisfeito por ter atingido os meus objectivos.
11:12 Encontrei finalmente a casa. Parece vazia. Puxo o banco para trás e observo.
13:12 Chegam finalmente no opel astra negro. Que saudades tinha do mover dela. Entram em casa.
13:49 Saem de casa. Ela mudou de roupa. Sigo o carro.
13:54 Ele deixa-a numa loja de perfumes e vejo-a a abrir as portas. Certamente será a dona.
13:57 Estaciona e entra num prédio de escritórios. Abandono o local e retorno à perfumaria.
14.14 Vejo-a limar as unhas.
14:38 Entrou uma cliente e comprou qualquer coisa.
15:08 Foi à casa de banho.
15:23 Atendeu um telefonema.
15:41 Um velhote entrou e comprou um perfume.
16:33 Bebeu um iogurte líquido e comeu três bolachas integrais.
16:47 Um casal jovem de namorados entra, perguntam qualquer coisa e saem.
16:54 Um homem compra uma grande caixa negra e saiu com ela toda embrulhada.
17:19 Atendeu um longo telefonema.
17:32 Regou os vasos com uma garrafa de água.
18:06 O homem chega, entra e ajuda-a a fechar a loja. Saem.
18:44 Estacionaram num centro comercial.
19:23 Ela escolheu um anel numa ourivesaria e ele deu-lhe. Ela trouxe-o no dedo.
19:36 Entraram no hipermercado.
20:19 Saem com um carrinho atolado de compras. Chegam ao carro e põem as compras na mala. Há ainda pessoas no parque de estacionamento mas poucas. Não se vão já embora. Levam o carrinho ao sítio e voltam a entrar no centro comercial.
20:24 Sentam-se num restaurante mexicano e comem algo que não identifiquei.
21:27 Estão na fila para comprar bilhetes para o cinema.
21:30 Estou sentado atrás deles. Ele acabou de lhe dar um beijo. Ele nem pestaneja durante todo o filme. Ela olha muitas vezes para ele.
23:33 Dirigem-se para o parque de estacionamento. Está deserto. É o momento perfeito. Carnívoro, irrompo de energia e aplico-lhes simultaneamente um golpe no pescoço caindo os dois no chão. O homem resiste. Levou uma pancada com a arma na cabeça. Ninguém viu. Apresso-me a empurra-los para dentro da carrinha. Entro. Estou a transpirar por todos os lados. O coração está aceleradíssimo. Torno a olhar para todos os lados. Tudo calmo. Demasiado calmo… Saio do parque de estacionamento.
01:13 Estaciono dentro da fábrica. Meto cada um na sua jaula que soldei ontem durante toda a noite. Tranco-as. Adormeço no chão frio.
07:21 Acordo com um barulho ensurdecedor. O homem debatia-se violentamente em desespero dentro da jaula. Ela estava sentada a chorar. Tinha batido com a cabeça em qualquer sítio e tinha um corte na testa a sangrar. Fui buscar a mala de primeiros socorros. Pedi-lhe que se aproximasse e tratei-lhe da ferida. Ela estremeceu quando lhe toquei com o algodão.
08:11 Fui a pé até ao centro comercial que ficava a 8 quilómetros dali. Tinha-lhe tirado as chaves do carro ontem. Entrei no carro e trouxe-o para a fábrica para não levantar suspeitas.
11:11 Entrei dentro do armazém. Ainda lá estavam. As jaulas foram muito bem feitas. Aquele carro até que é muito suave de se conduzir.
12:02 Soltei a mulher e disse-lhe para entrar para trás na carrinha. Ela fez tudo direito. Ele furioso gritava-me… Saí do armazém até ao meu pinhal.
12:20 Estacionei. Entrei na parte de trás. Vendei-a e disse-lhe que a ia soltar. Disse-lhe que podia fugir à vontade e que eu não iria de maneira nenhuma atrás dela. Atei-lhe os braços para não tirar a venda. Soltei-a e fiquei a ver… Mal a soltei, desatou a correr descontroladamente até embater num pinheiro. Levantou-se e correu até tropeçar numa pedra. Lá andou a arrastar-se pelo chão, a tropeçar a bater contra os pinheiros até desmaiar de cansaço… Bastava-lhe ter seguido calmamente o caminho, até chegar a qualquer sítio povoado… Prometi-lhe que não iria atrás dela e não teria ido. Peguei nela. Estava toda arranhada e aleijada. Meti-a na carrinha e segui de novo para o armazém.
12:35 O marido estava a dormir. Despi-a, lavei-a completamente e tratei das feridas. Tem um corpo lindo tal como eu já sabia. Deitei-a dentro da jaula e fechei. Abri a mala do carro para ver o que eles tinham comprado ontem. Basicamente só comida. Comi qualquer coisa e pus a comida perto das jaulas para que se servissem. Saí dali no carro. Fechei tudo muito bem.
13:48 Estacionei frente à praia. Adormeci.
21:07 Acordei muito bem disposto. Fui até um bar que havia perto da praia. Bebi um sumo de laranja natural e fiquei a ver as actuações do karaoke. Participei três vezes.
03:11 A esta hora já deve ser seguro ir a casa deles.
03:14 Abro o portão automático com o comando e estaciono o carro à entrada para que os vizinhos o vejam de manhã. Experimentei todas as chaves que eles tinham nos bolsos até encontrar a certa. Um caniche branco, pequenino e querido vem de encontro a mim a ladrar. Cheira-me uns minutos e depois segue a vida dele. Como não encontrei a comida dele pus a cozer um bocado de carne para lhe dar de comer.
03:19 A casa é bastante agradável. Um odor exótico agradável paira no ar. Pena os quadros serem imitações vulgares. Subo até ao quarto principal. Nada de especial… O normal… Ela gosta de se sentar à noite frente ao espelho. Não gosta da sua imagem. Toma imensos calmantes e anti-depressivos. Tem péssimo gosto para escolher roupa interior. Na mesinha de cabeceira para além de imensos comprimidos tem chaves, bastantes jóias, um batom, um pacote de bolachas e um livro. Ele tem apenas um relógio e um telemóvel fora de uso.
03:22 O colchão é muito mole. A casa de banho está uma lástima em termos de limpeza. Um caixote de lixo a abarrotar de papel e pensos higiénicos. A explicação está na sanita. A saída não tem diâmetro suficiente. O mais certo é que entupa muitas vezes. Lamentável e tão simples de resolver com uma nova… O lavatório está cheio de pelos da barba. A banheira é pequena e possui muitas manchas de calcário. Azulejos pirosos… Odeio estas portas foleiras de contraplacado.
03:36 Desci até à cozinha e dei a carne ao cão que estava esfomeado pois até comeu a ferver. A sala é acolhedora. Adormeci a ver o álbum de fotografias.
07:00 Acordo com o alarme do telemóvel. Olho para a estante. Livros falsos para decoração? Não é possível! Enfim… Fecho tudo direito. Deixo ficar o carro e preparo-me para uma grande caminhada até à fábrica. Ponho a trela no cão e sigo com ele pela rua fora. Ninguém me viu.
11:09 Entro na fábrica. Ela emociona-se ao ver o cachorrinho. Ele olha-me furioso certamente a pensar na razão para eu estar com o cão… Comeram que se fartaram. O chão tem restos, papéis e sacas por todo o lado. Meti o cão na jaula dela. Ela deu-lhe bolachas mas ele não comeu de tão farto que ainda estava. Quando me virei de costas, ele aproveitou-se e atirou-me uma laranja à cabeça. Olhei para trás controladamente. Empunhando a arma, abri a jaula, agarrei nele, puxei-o para fora e atirei-o ao chão. Dei-lhe uma grande paulada nas costas com um cabo de uma sachola. Certifiquei-me que ele não tinha partido nenhuma costela e meti-o novamente lá dentro. Abri a jaula dela e ordenei-lhe que arrumasse aquela lixeira toda. Ela silenciosa e a choramingar lá arrumou tudo enquanto olhava para o marido gemedor.
13:33 Trouxe quatro baldes de água limpa, um pano e um champô. Disse-lhe a ela para se lavar primeiro e depois lavar o marido. Observei. O amor entre eles tinha crescido. Já se valorizavam mais. Começavam a notar a importância dos sentimentos. Ela lavou-o com muito carinho. Deixei-os ficar juntos na mesma jaula. O cão ficou comigo. Disse-lhes que o melhor seria descansarem pois amanhã é dia de trabalho.
04:30 Acordo-os e atiro-lhes uma venda para porem. Entram na carrinha. Levo-os para a minha casa perdida em árvores.
05:11 Entrego-lhe uma pá e a ela uma sachola. A ele explico que tem que de ser feito um buraco de quatro metros de comprido, três de largura e três de fundo. Só pode parar quando desmaiar ou quando terminar. A ela ordenei que sachasse um campo inculto de doze metros por dez e que também só poderia parar quando acabasse ou perdesse os sentidos.
08:23 As mãos destreinadas não lhes vão permitir trabalhar muito mais tempo sem dor extrema. Ele está a cavar com toda a força e ela muito calminha e certinha.
11:36 Ele pergunta-me se não vão comer nada nem descansar. Eu digo que não.
13:27 Ele já gastou as energias todas e cava descompassadamente. Ela já vai quase a meio e continua com o seu ritmo certo. Já estão a trabalhar desde as cinco da manhã sem comerem. O sol bate a pique. Entrego um chapéu a cada um.
16:48 Ela terminou. Ele está muito longe do fim. Autorizei-a a ajudá-lo. Ele insultou-me e perguntou se o buraco seria grande o suficiente para me enterrar. Ela olhava para ele frequentemente. O peito dele estava todo suado e sujo de terra. Os dois tinham as mãos em sangue. A pele arrancada das bolhas estava colada nos cabos da pá e da sachola. Estavam completamente exaustos e desidratados. Ela é muito orgulhosa. Ele é fraco. Ela tem valores muito prezáveis. Ele viaja na vida insatisfeito.
17:51 Ele atirou a pá ao chão e disse que eu o podia matar mas que não fazia mais nada. Disparei um tiro certeiro a 10 centímetros do pé dele. Ele agarrou a pá e cavou com energias revitalizadas. Ela ficou em estado de choque com o disparo. A cova já passou o meio.
21:30 Está completamente escuro. Liguei os focos. Ele acabou de desmaiar. Ela continua. Eu olhei para ela. Arregacei as mandas e ajudei-a. Ela olha para mim, surpreendida pela força, habilidade e acto.
02:19 Termina-mos o buraco. O homem já acordou e está sentado a um canto. Fiz-lhe uma festinha na bochecha. Ela olhou para mim tristinha. Foi-se sentar ao lado dele. Sentei-me também e fiquei a vê-los. O amor inicial deles tinha renascido. As mulheres são muito mais resistentes que os homens. Começaram a beijar-se e descontrolaram-se. Rebolaram pela terra nus. Friccionavam-se desesperados como se não fizessem amor há anos. Começaram o sexo mais excitante que alguma vez tinham tido. Ali estavam eles, perdidos no meio do nada, de noite, num buraco, sujos, famintos, em mau estado físico com um possível psicopata, sem saberem nada do que lhes pode vir a acontecer mas, naquele momento tudo parou e amam-se, desesperadamente, sem mais nada importar. Parecia tudo tão carnal mas havia tanto sentimento… Durante mais de meia hora fundiram-se e gritaram exaltados. Os gritos ecoavam no vazio. Era extremamente excitante vê-los completamente loucos. Possuíam-se aflitivamente, cada vez mais. Estavam completamente coloridos de terra. Ela a ter vários orgasmos simultâneos. Gritava demente e louca. Contorcia-se freneticamente. Ele tinha criado energias do nada e cumpria magnânimo, animalesco. Ele finalizou o acto e deitou-se para trás. Ela, com uma expressão facial alucinada demora uns segundos a voltar à realidade e deita-se ao lado dele abraçada e exausta. Acho que se esqueceram da minha existência e presença. Adormeceram nos braços um do outro. Ali fiquei, a ouvi-los ressonarem.
07:23 Amanheceu devagarinho.
12:43 Ela acordou e dá-lhe um beijo e depois volta à verdadeira realidade e levanta-se num ápice. Olha para mim, sentado num canto, ainda acordado. Eu olho para ela. Que olhares poderosos. Ela entende-me. Já não tem tanto medo de mim. Levanto-me. Ela pergunta-me a razão pela qual só ouço piano. Olho para ela espantado e desvio o olhar, furioso com a atenção dela. Acordo-o com o pé bruscamente. Ele exalta-se violento… Com um novo toque agressivo de calcanhar lembro-lhe que ele não manda ali. Pergunto-lhes se sabem para o que é o buraco? Ele diz que não sabe. Olho para ela. O seu silêncio disse tudo. Ela sabia o que o buraco lhe tinha dado. Sorriu para mim fascinada.
14:37 Eles estão de volta à jaula, separados, nus e sujos e ainda famintos. Hora de dormir. Estou exausto.
03:54 Acordei. Estão a discutir o que lhes vou fazer. Ele acha que eu os quero matar. Ela diz que não.
04:32 Entro em crise interna e canso-me de os ter ali presos. Entro em depressão. Acho que já os ensinei um pouco mais a apreciarem a vida. Entro na jaula dele, possuído e dou-lhe uma grande pancada na cabeça. Ele cai, inconsciente. Meto-o na carrinha. E peço-lhe a ela para entrar com o cão. O fim disto deveria ser muito mais requintado, elaborado e genial mas cansei-me!
05:03 Ninguém nas ruas. Carrego o corpo para dentro de casa. Meto-o na banheira. Ela lava-o a meu pedido, ajudando-a por vezes a movimentar o corpo, e veste-lhe o pijama. Ponho-o na cama.
05:05 Ela olha para mim e eu para ela. Digo que chegou o tempo de partir. O olhar dela é complicadamente terno. Aproxima-se de mim e beija-me pouquinho talvez como agradecimento por ter mudado a sua vida. Como uma explosão de radiação cósmica beijamo-nos intensamente. Eu afastei-me. Deitei-a na cama. Beijei-lhe a testa. Injectei-lhe um poderoso sonífero e disse-lhe adeus enquanto o olhar dela se perdia… Empurrei-o contra ela e pus o braço dele sobre ela… Fiz uma festa ao cão… Sai de casa... Não sabem onde estiveram. Não viram locais, matrículas ou qualquer referência à minha pessoa. No dia seguinte passei lá e vi o marido prestar declarações à judiciária.

Passaram 7 anos. Casaram. Tiveram uma filha. Avivaram o amor. Ela ainda tem a perfumaria e por vezes vê-me olhar para ela de fora da loja. O marido valoriza mais a vida e o que o rodeia. Agora vive intensamente. Ela está feliz. Tem tudo o que sempre desejou… Ou quase tudo… E eu… Eu...

domingo, junho 05, 2005

Ó

Em cada mil vidas, existe uma que nos encanta.
Tens, de inimitável, a amizade que me levanta!

Ouro nada vale perante a tua pureza emocional.
Revives, neste mundo nefasto de imperfeições
Onde poucos sabem de verdade o teu valor real.
Dás-lhes o que não podem receber… Morcões!
Avante! Mantém esse teu jeito de ser tão natural!

Um dia, o sol, teimoso em continuar sem brilhar,
Explodirá em raios jactantes e todos fará pasmar!

O molhe de pedras estremece no teu suave andar.
Habitar contigo sem te tocar? Dar azo à loucura?
Nos teus braços dispara o rubor que me faz corar!
Indefensável o teu ataque… Não tenho armadura!
Mas contra-ataco forte. Esta guerra é de terminar!
Incógnitos lábios acolhedores… A batalha é dura!
Mas a surpresa! São dois os vencedores do lutar!

Utopias de prazer rangem chapas e as borrachas.
Esponjas deformadas com as pressões corporais.
Tensões díspares para quê? O quê que tu achas?

Ouve-me! Sabes como é o teu sorriso de prazer?
Levita-te como uma pena que flutua em alto ar!
E esperas tu que eu tenha força para me conter?
Pede-me tudo… Menos o que não te posso dar!

Onde estás? Não sei! Ao pé de mim sei que não!
Talvez num bar qualquer… A fumar uma cerveja.
Intensidade envolve-te nessa tua fome de paixão.
E a tua onda junta o rio ao mar sem que eu a veja.
Falto no meu lugar! Substituível? Sabes que não!

Amanhece devagarinho. É a minha vez! Bom dia!
Devagarinho amanhece. A minha vez… Bom dia!
Nasce o dia e foge o escuro e a nossa privacidade.
Incansáveis pescadores pescam água do rio no rio.
Lá vêm os atletas junto aos eléctricos da cidade.

Imbatível, a nova ponte, mede forças com a antiga.
Tarados, os meus dedos, lá acariciam a tua barriga.

A tua mão sobe a corpulenta perna. Ai esse sorriso!
Rindo, contemplo os beijos que te tatuei pelo rosto.
A massagem é indelével por não estar como preciso.
Partes de ti acabam espalhadas por mim com gosto.

Isto é estranho. O tempo demora bastante a passar!
Lembro a mancha húmida a alastrar nas tuas calças.
Insisto. Anda lá! Vais me dizer que tens de estudar?
Mesmo? Não te enganes! Corre até ao que alcanças!

sábado, junho 04, 2005

Pois

Malditos jogos preconcebidos de incompatibilidades horripilantes. Monstros andantes viscosos que deixam rastos brilhantes. Putrefacção mental e mais que tudo emocional. Irascibilidade existencial em dedos rompidos por trabalhos de injustiça diferencial. Sonhos de realidades acontecidas na ilusão da distribuição psicotécnica geográfica. Corre e gira na depressão pois terás uma mistura inorgânica na espera. Vive e assim alimentas vidas em búzios compositores de sinfonias cacofónicas de motores de pesadas máquinas. Ganâncias de bens irreais incapazes de serem transportados. Orgasmos admitidos e orgasmos não admitidos e não orgasmos admitidos e não orgasmos não admitidos.
É isto? É isto? Pois que acabe!
Cruzadas galopantes em solos oleaginosos. Patadas que marcam chãos de mármore esmeralda. Sinos em que os badalos são os braços onde a tua mão segura uma bola de ferro que embate esmagando e despedaçando dedos que em tempo te permitiram mexerem. Obsessões pelo ridículo do ser em radiações confortáveis do progresso. Necessidades de confraternizações plásticas. Só se constroem itens destrutíveis poupando riscos de falha pré-assumidos. Luas metálicas de decoração carnal em que há regressão existencial por tecidos rotos em prol da contradição da criação. Noites demoníacas de azo distorcido. Fantasia de prazo expirado em torno real. Mobílias que não cansam de torcer. Pernas que desaparecem em areias movediças. Ignóbeis bruxas da parvoíce egocêntrica. Maravilha surpresa de cerne enigmático. Utopias em odisseias no próprio lugar. Risos que escondem lágrimas geladas de um verão.
É isto? É isto? Pois que acabe!
Crianças que cantam mais alto que os ventos que acariciam as montanhas. Lábios que beijam sem deixar marcas. Palavras traídas esfaqueadas pelo tempo que ninguém escorou. Dedos que descarnam peles demasiado sensíveis para aguentarem uma acoplagem poluída. Correres desesperados por mares de tranquilidade. Pedras que ousam segurar as águas que alguém agitou. Seres superiores inventados pelo desconforto da alma. Bebidas que intoxicam instabilidades hormonais. Pulmões cheios de areias puras e lavadas. E tu que permaneces nessa alienação que enoja a minha visão esventrada.
É isto? É isto? Pois que acabe!
Malditas vidas que pensam mesmo existirem. Malditas existências que pensam mesmo viverem. Fogos que gelam sinapses de alto nível. Túneis sem saída que definem os teus contornos dermatológicos. Pêlos que regem a tua história e a guardam e a arquivam e a mantêm e a seguram e a propagam e a. Um dia tudo acaba sem perceberes porquê. Cavernas de poder que só desoprimidos acolhem. Noites em que gritas enraivecida por uma perda que nem conheceram. Paredes que seguram letras demasiado pesadas para pousarem na palma da tua mão. Frutos sumarentos que te alimentam a sequiosa necessidade. Chuvas descontroladas que te enchem de ar fresco e renascido. E tu que vertes o teu sangue só porque sempre quiseste colorir o mundo.
É isto? É isto? Pois que acabe!
Mortes dolorosas em seios violados por um bisturi qualquer desinfectado. Bombos que estremecem e vibram o teu caixão quando segue seguro pelos mãos dos desconhecidos que choram por ti. Tens tudo para saber que não podes ter nada. Guardas um quadro para que possas mostrar a todos o que foste. Estradas formadas pelos teus olhos e os dos teus antepassados calcados e recalcados por sorrisos puros de naturalidade. Desenhas em papel-moeda só para que nem tentem ver a tua ideia. Preferes esconder a dúzia de letras entre os pêlos da sobrancelha esquerda da filha que nunca chegaste a ter. O livro que compras só para que mais ninguém o possa ler. A música que te rasga os tímpanos imergidos num banho escarlate de fama. O teu sucesso é a tua morte asfixiada pelas tripas das tuas vontades.
É isto? É isto? Pois que acabe!
Leituras inaptas. Palavras que não te podem tocar. Segredos escondidos entre sílabas. Códigos matemáticos que não podes decifrar e muito menos descodificar. Irrealidades metafóricas que apenas podes apreciar de longe. Arte singular. Tempo que insistes em gastar em torno do nada que não te pode penetrar. Esforço medíocre que ousaste empenhar. Horrível humildade que não te permite desistir e que te deixou chegar aqui. Humidade química e escritora. Pobreza extrema que te arranca o pedinte que trabalha para ti. Despe o teu corpo de falsidade. Veste o teu corpo do que fica por pensar. É na tua confusão que reside o meu entendimento e certezas. Para que insistes em tentar? Desiste. Assume-me como o teu desconhecido. Não desejes magias de morte. Estas são e serão as minhas palavras. Sim. Não. Talvez. Sim.
É isto? É isto? Pois já acabou!

terça-feira, maio 17, 2005

Prostituta

Tenho dezanove anos e no fundo sou uma prostituta. Um amigo meu, muito rico, leva-me para festas da alta sociedade. Comecei por necessidade. Eu e a minha mãe cega tínhamos que comer para viver. Hoje faço-o porque sempre foi a minha vida. A minha mãe morreu e vivo sozinha. Acho que me posso considerar uma prostituta de luxo. Recebo quantidades exorbitantes de dinheiro e bens. Não tenho casa porque nunca tive. Não tenho carro porque nunca tive. Sou só uma prostituta. Uma prostituta rica. Tive a sorte de não entrar num mundo paralelo a este, o mundo das drogas mas, esteve sempre perto de mim. Vivo nos sonhos e sonho na vida. Procuro o que não quero na esperança de encontrar o que quero. Fujo. Corro, corro caminhos. Estou com homens e mulheres diariamente. Sou a intermediária das suas fantasias sexuais. Finjo prazer para acreditarem que o tenho e para o poderem ter. Os primeiros tempos custaram muito. Tive que abdicar de sentimentos de paixão, amor e carinho. Tive que me aceitar como um corpo e objecto. Revoltava-me que a minha natureza humana me deixasse sentir excitada quando não o queria. Sentia-me mal por gostar de algo que não tinha verdadeiro valor. A prostituição é o único trabalho que dá prazer sem quererem. No fundo é um trabalho como outro qualquer em que vendemos parte do nosso corpo. Em qualquer trabalho vendemos ou alugamos ou a nossa força física ou um direito de uso das nossas características cognitivas. Durante anos fui-me apercebendo da razão pela qual me procuravam. Desejo de variedade. Complexos e frustrações inultrapassáveis. Vontade de uma vida sexual regular. Realização de fantasias não permitidas pela mulher. A mente humana é muito complicada e rica. Pode alguém agarrar um foguete depois de aceso? Um dia tive uma ideia genial. Por quê não fazer o contrário absoluto? Passei a, sempre que encontrava um homem que me desejava, procurar a sua mulher e cobrar para não realizar qualquer acto sexual com o marido. Elas não têm maneira de recusar tal proposta pois sabem que a vontade do homem não é muito fácil de controlar. Evitam portanto a traição do marido. Sempre que contratam os meus serviços, ajudo-as também ensinando algumas tácticas básicas para voltarem a atrair seus esposos. Creio que foi um passo gigantesco. Sinto-me mais útil. Os rendimentos, inesperadamente, ainda cresceram mais. É estranha a associação deste trabalho à perfeição. É como ter uma amendoeira na qual as amêndoas já nascem descascadas e cobertas de chocolate. O mais incrível é que essas mulheres se tornaram grandes amigas. Adoram-me e eu vou crescendo na nata da população acima da média. Fui me tornando conhecida. Já não entro nas festas pelo acompanhante mas sim porque sou convidada. Sou amiga das famílias mais poderosas. Eu? Uma prostituta que nasceu na miséria? Aos vinte e cinco anos sou sem dúvida uma das mulheres mais ricas da zona. Não tenho casa porque nunca tive. Não tenho carro porque nunca tive. Alguns anos passam. O sexo foi apagado da minha vida. Não o pratico à meses e não sinto a falta dele. Apenas sinto um vazio. Uma falta de presença quando fico sozinha. Um dia aconteceu algo que mudou a minha vida. Um rapaz veio ter comigo no fim de uma gala. Afirmou saber que já não sou prostituta e que muito menos ele teria dinheiro que chegasse para mim. Disse que precisava desesperadamente de estar comigo e que me dava em troca uma pintura da sua autoria. Aceitei pela originalidade da situação. Deixei os convidados e recusei os seguranças seguindo com ele pela rua. O rapaz transpirava felicidade e entusiasmo. Perfazia círculos em meu torno enquanto eu caminhava. Notava-se que ainda era muito novinho. Vinte e poucos anos certamente. Ao chegar a um jardim de tulipas salmão apontou e disse que aquelas flores eram todas minhas. Sorri pela sua patetice. Parou à frente de um prédio velho e degradado do centro. Abriu a porta e subimos pelas escadas até ao sótão. É aqui que eu vivo! Ao entrar fiquei estarrecida. Ele vivia num compartimento enorme em que a única mobília e pertença era um velho cobertor e umas latas de tinta. Nunca tinha visto algo assim. Tecto, paredes, chão, janelas e portas todos pintados. O grau de minuciosidade era fantástico. O tecto imitava o céu à noite. Ele representava os tons de luminosidade com tal perfeição que era impossível não acreditar que era mesmo o céu nocturno estrelado. Nas paredes erguiam-se prédios, fontes, estátuas e pessoas. No chão pousavam calçadas, mosaicos e muitos outros pisos de ilusão. Afirmou ser ele o autor. Era sem dúvida algo deslumbrante. Conduziu-me até ao cantinho onde tinha o cobertor. Sentamo-nos no chão duro. Abriu os braços exclamando que aquele era o seu mundo. Abracei-o. Durante horas falamos e falamos. Não tinha família e confessou-me ter nascido com síndroma de imunodeficiência adquirida. Miraculosamente continuava a viver após todos aqueles anos. Realmente o rapaz tinha um aspecto muito debilitado. Perguntei o quê que eu estava ali a fazer. Ele respondeu que via todas as minhas revistas e que sempre sonhou um dia estar comigo. Eu sorri. Ele continuou e disse que hoje era um dia muito importante para ele e que o queria celebrar com a minha companhia. Sem saber bem como, perguntei algo inédito na minha vida. Queres fazer amor comigo? Perguntei sem sequer estar preocupada com os problemas que daí poderiam advir. Ele olhou para mim com um ar sonhador e acenou com a cabeça positivamente. Lamentei o facto de ele não se importar que eu ficasse fatalmente marcada com aquela aventura. No entanto, dado ter sido a primeira vez que me tinha apetecido tal coisa, não vacilei. Despi-o. Despiu-me. Mexi-lhe. Mexeu-me. Deitei-me, tentando arranjar uma posição menos desconfortável no chão duro. Pegou num pincel. Pensei que me ia pintar o corpo. Pintou-me com água. Perguntei a razão de me pincelar com água. Ele sorridente disse que não era água mas sim tinta transparente. Continuou afirmando que pintar-me com cores seria borratar a mais perfeita das pinturas. Pincelou cada fragmento do meu corpo. Guardou o pincel e tirou uma tesoura do casaco. Tocou-me e com muito carinho cortou os meus pelos púbicos rente à pele. Pouco a pouco, ia empilhando todos sobre a minha barriga, no umbigo. Estava curiosa, tanto tinha visto e experimentado mas, tal fantasia nunca tinha ouvido falar. Cortou montinho a montinho. Nada ficou. Procurou até ao fim das minhas cavidades. Olhei para a minha barriga espantada com tanta quantidade. Ele fazia questão de os cortar em pedacinhos pequeninos. Parou. Guardou a tesoura. Pediu-me que não me mexesse e veio-me dar o beijo mais apaixonado e sentido da minha vida. Deitou-se à minha frente. Perguntei se me ia fazer sexo oral. Ele voltou-se para mim com um olhar sonhador. Aproximou devagar a cabeça à minha barriga. Num movimento súbito de respiração, inspirou com toda a força, aspirando o amontoado dos meus pelos púbicos. Levantei-me num ímpeto energético. Ele tossia violentamente e sufocava agonizado. Ficava roxo e rebolava pelo chão. Entrei em pânico. Não sabia o que fazer. Ele estava em colapso. Os olhos cheios de lágrimas. Agarrei-o e soprava tentando dar-lhe ar. Que situação horrível. Acabou por sucumbir. Jazia agora no chão, nu e púrpura. Que morte devastadora. Deve ter sofrido imenso. Chamei a guarda. O corpo foi levado ensacado. Não consegui verter uma única lágrima por tão miserável existência. Que vida aquele pobre coitado teve. Doente, sozinho entre aquelas paredes. O desgraçado estava a celebrar o dia da sua própria morte com a minha companhia. Por isso hoje era um dia importante para ele. Afinal sempre se preocupou com o meu futuro. Passeei toda a madrugada fria, angustiada com aquele momento. Os dias passaram… As coisas infelizmente perdem a sua intensidade com o tempo… Ou felizmente… Um dia, passadas algumas semanas, um senhor bateu-me à porta referindo que precisava falar comigo sobre um bem. Deixei-o entrar. Informou-me que um imóvel tinha-me sido deixado em testamento. Acompanhou-me até lá… O meu coração tremeu ao avistar o prédio onde morava o rapaz… Ele entregou-me a chave e disse que era o sótão daquele prédio… Eu pedi-lhe que fosse embora pois conhecia o lugar… Entrei… A magia daquelas cores perfeitas… A existência da noite no dia… Viveu sempre em noite… Percebi o significado… Ele… Pela minha companhia… Tinha prometido uma... Pintura…

segunda-feira, maio 02, 2005

Oito

Acordo. O meu rabo molhado e nas costas uma forte dor. O tronco deste velho amieiro é desconfortável como encosto. Um objecto aguçado magoa-me a coxa. Apenas uma pequena pedra. Algo desliza entre os meus dedos do pé. Retiro e pouso as sandálias no poço. É uma minhoca avantajada que se estica entre os meus dedos. Retiro-a rapidamente enojado. Levanto-me e tento readquirir o equilíbrio erecto. Limpo às calças as mãos sujas de terra pelo apoio no solo para me erguer. A água ainda segue na levada. Um mediano lagarto azul foge para um buraco. Faltam oito minutos para as oito horas. Espirro ao entrar em casa pela diferença de temperatura. Nada enxergo no ambiente sombrio. Acendo o ar perfumando um pauzinho de incenso de baunilha. Parto passivamente fatias de presunto e broa de milho. Um vento fresco visitou, deixando rapidamente a cozinha. Um arrepio bruto e rápido sensibilizou-me a nádega direita. Tiro o telemóvel e é o teu toque de aviso. Vejo que passam oito minutos desde as oito horas. Abro a porta e percorro lentamente o caminho até à entrada. O vento aumenta ferozmente a intensidade na tentativa de diluir a minha. Lá estavas tu na entrada. Abro o pesaroso portão e dois rapazes entram como potros desenfreados gritando e correndo. Sorrio para ti e cumprimentas-me. Pego nos teus sacos e trago-os para dentro fechando bem o portão. Segues à minha frente a falar alto e a gesticular espalhafatosamente. Fico a saber que tiveste que trazer os teus irmãos senão não poderias ter vindo. O vento mistura e espalha vários aromas vindos do pomar. Entras enérgica e levas os miúdos lá para cima para dormirem. Trago velhos cavacos de castanho para a cozinha. Acendo duas pinhas. O fogo abrilhanta as pepitas de quartzo e mica presentes no granito das paredes. Sinto os teus braços circundarem-me a cintura. A tua cabeça apoia no meu ombro direito. Com a orelha acaricio-te a face. “Não queres comer qualquer coisa?”. “Não, já comi com eles ao vir!”. “Vamos então experimentar?”. ”Sim. Vamos!”. Da saca tiras saquinhos, frasquinhos e caixinhas que agrupas em cima da mesa. Tiras um velho calhamaço grosso, de capa em pele gasta, selado por ferro. Abres e procuras a página oitenta e oito. Observo o teu olhar atento. Com dificuldade arrasto o grande e velho pote de ferro para cima das chamas. Labaredas caminham verticalmente contornando o seu fundo redondo. Vestes o traje negro e colocas o cone na cabeça. Para evitar algum erro, visto, sorridente, o meu roupão lilás escuro. Despejas meia garrafa de azeite dentro do pote e a temperatura do ferro era tal que entrou instantaneamente em ebulição. Adicionas um punhado de peles de amêndoas e duas mãos cheias de casca de freixo centenário dilaceradas. Misturas tudo muito bem, com a colher de pau, e deixas algum tempo a aquecer. Lá fora reina o brilho de uma lua que não gosta de escuro. Somos o tudo perdido no nada. Começa agora a pairar no ar um odor forte e diferente do habitual. Acendo duas velas perto de nós. Vertes umas gotas de óleo de noz e soltas uma manada de pétalas de flor de ervilha. Oito sementes de cabacinha, uma por uma. Vejo o creme borbulhante no fundo a dissolver as frágeis pétalas. No meu pensamento pica a dúvida do que estarias a preparar. Olho para ti e tu para mim. O meu dedo segue, respeitoso, a tua coluna vertebral e perde-se no teu cóccix. Entre o manto vislumbro um bocadinho da tua barriga descoberta. Meia dúzia de pêlos definem um caminho meridional do fim do teu abdómen. As árvores rangem assustadoramente. Está um vento fortíssimo. A sensação do momento é completamente indescritível. Aquele ambiente não poderia fazer parte do mundo real. No escuro somos dois vultos perdidos em chamas. Não consigo deixar de olhar para ti. Uma colher de melaço. Um copo de infusão de folhas de oliveira, raízes de ginjeira e alecrim. O cheiro agora é apaixonante. Afasto-me um bocado para acender a lareira da sala. Dois tocos paralelos, duas pinhas acesas no meio e três tocos por cima também paralelos e perpendiculares aos de baixo. Para terminar mais três tocos por cima perfazendo o total de oito. Manias de maneiras. Salvas de prata irradiavam luz intermitente de fogo. Se estivesse sozinho tremeria de medo naquele cenário mas, contigo sentia-me seguro. Ao teu lado sentia o meu poder triplicado. No canto da casa, rebaixada, mexias a tua poção. Tenho que comprar um caldeirão num antiquário e uma corrente para o pendurar na chaminé. Afasto o teu cabelo e beijo-te o pescoço. Foi diferente sentir a onda dos teus pêlos tornados hirtos. “Tens a certeza que podes tomar essa mistura? E se te faz mal?”. “Ela não é para tomar! É apenas para untar o corpo!”. Com uma expressão leiga rendo-me à tua sabedoria. Entornas uma jarra de água, remexes e pões a tampa no pote. Esta parte está concluída restando apenas aguardar algum tempo. Vais buscar um almofariz e maceras alguns medronhos com areia de quartzo e oito gotas de óleo de coco. Está pronto o unguento. Está tudo feito. Resta aguardar. Acompanhas-me até à sala e sentaste comigo no chão perto da lareira. Sou bombardeado de perguntas sedentas sobre o meu interior que tanto te confunde. Passados oito minutos começas a despir-te. Foi a primeira vez que te vi assim. O teu olhar atento procura uma reacção minha. Queres saber o que acho do teu corpo mas detestarias que dissesse algo sobre ele. Um bocado irracional, esperas apenas conseguir uma resposta com o teu olhar. Sorri… A verdade é que o teu corpo é muito belo. Estás cheia de vergonha mas apenas transpareces à-vontade. É assim que queres que te veja. Levantas-te e corres a buscar o unguento. O teu cabelo e corpo estremecem com os teus saltinhos. Sentas-te e entregas o grande almofariz. Olho com espanto. “Que queres que faça com isto?”. “Massaja-me!”. “Hum. Massajo-te? Eu?”. “Está aqui mais alguém?”. “Mas, massajo onde?”. “No meu corpo claro!”. “Todo?”. “Sim!”. Fico estarrecido. Mergulho os dedos naquela mistura pegajosa. “Deita-te de costas.”. Os meus dedos percorrem a tua forma e escultura. Conheço curvas, rectas, sinais, marcas, altos, vales, altos e altos. A pouco e pouco vais adquirindo a cor daquela substância alaranjada. Os meus dedos contorcem-te, comprimem-te, remexem-te, rolam e deslizam em ti, amassam-te, distendem-te… Convocatória das sensações! Os grãos de areia rebolam pelos meus dedos. “Não te estou a magoar?”. “Não. Continua!”. “Está bem. Volta-te se faz favor.”. A palma das minhas mãos delineia os teus seios. As pontas dos meus dedos arranham-te com as areias. Na tua expressão não há prazer nem receio. É uma expressão atenta. Coloro o teu pescoço e a tua face. Espalho pelas tuas partes púbicas. E aí termino com o teu “Já chega. Obrigado.”. Olhas para mim. Limpo as mãos a uma toalha. “Agora tu!”. “O quê? Agora eu?”. “Sim! Agora é a tua vez de seres massajado”. “Eu? Mas nem sei para quê que isso serve!”. “Depois vês. É Surpresa!”. Seduzido entrego-me às tuas mãos que me despiram cuidadosamente. Nos meus olhos o receio e temor. És muito inteligente. Apercebes-te de como me sinto e beijas-me para tranquilizar. Vejo os teus dedos a dirigirem-se-me untados. Sinto a substância deslizar por mim e arranhar-me. É uma boa sensação. Uma frescura irrompeu. Estou visivelmente excitado e isso agrada-te. Não há destino possível que não percorresses e encontrasses. Por fim sobes para cima de mim e assim ficas deitada, suspirando, profundamente. A tua cara sobre a minha. Sinto-te respirar. Sinto o teu odor. O teu cabelo faz-me cócegas. “É bom não é?”. “É.”. Olhas para mim e perguntas “Queres vir tomar banho?”. “Claro! Estamos todos borrados!”. Apagas o fogo e pedes para depois trazer para cima a poção do pote enquanto verificas se os miúdos dormem e ligas a água quente. Lá subiste as escadas. Onde é que eu iria por aquela mistela? Com uma colher de tirar sopa encho uma terrina de cavalinho e lá vou eu. Está um bocado frio para andar nu. Que aroma estranho habita em mim. Lá em cima já estavas na casa de banho. O mini tanque meio cheio. “Entorna lá!”. Entorno e pouso com cuidado a terrina na cómoda do quarto. A água ficou tenuemente castanha. “Bate ao mesmo tempo que eu oito vezes no tanque com a mão.”. “Para quê?”. “Bate!”. Quando queres, consegues mesmo mandar. Lá batemos e entramos. Está quentinho. Agradável conforto. Trabalhos não faltaram para ter tal luxo na minha casa de banho mas aquela piscinazinha vale mesmo a pena. “Mas conta lá o quê que isto faz?”. Ouço uma gargalhada sonora. “Em princípio, se tudo correr bem, é como um tratamento fenomenal da pele incluindo depilação eterna!”. “Como? Então vou perder todos os meus pêlos?”. “Para quê que te fazem falta?”. Ironicamente guardei a minha completa falta de crença para mim e fingi acreditar… “Está bem. Não há problema.”. Saio, visto o roupão e seguro o teu. Sais e veste-lo, tiritante. Dou-te um beijinho na bochecha. Já no quarto seco os nossos cabelos enquanto os penteias. “Vamos dormir nus?”. “Pode ser.”. Cobrimo-nos e apaguei a luz. “És mesmo louco. Deves ter uma das maiores camas do mundo!”. “E não chia, não abana e muito menos quebra mas deu trabalho a construir.”. “Abraças-me com mais força?”. “Sim. Aproxima-te.”. Assim adormecemos entrelaçados naquele calor. Horas passam. Acordo com o galo ao longe. Não abro os olhos. Ouço-te respirar. Coço o peito. Demasiado suave e escorregadio. Estranho. A preguiça não me deixa abrir os olhos. Procuro com os dedos e encontro o teu umbigo. Desço. Não encontro o trilho que dantes dividia o fundo da tua barriga. Nunca tinha sentido uma pele tão lisa e descabelada. Conseguiste mesmo. Não quero nem pensar no meu aspecto. Abraço-te novamente e adormeço…

domingo, abril 24, 2005

Machado

Folhas vermelhas amontoam-se pelo passeio. As ameixoeiras abalançam, alcoolizadas, com o choque das correntes de ar. Belas árvores! Leves bocadinhos de água estão a soltar-se no céu e atingir-me a face. Uso este medieval machado de lânguido corte como cajado de apoio à minha peganhenta caminhada. As pontas do machado tilintam com o correr na textura dos pequenos paralelos de basalto da calçada. O seu cansativo peso faz-me concluir precipitadamente que nos combates de outrora, dificilmente poderia ter sido usado com grande destreza e habilidade. A pressão da Tua leve discussão ecoava na minha cabeça como próximos badalares de um grande sino estridente. Sei que a minha calma é preocupante mas nada posso fazer para evaporar este imenso mar que despejaste dentro de mim! Toda a energia agressiva que despertas concentra-se dentro desta infinitamente diluída tranquilidade. Os meus olhos semicerrados sorvem o horizonte. Duas crianças felizes e de mão dada aproximam-se de mim. A alegria de uma bela amizade com mistura de amor inocente inibe-lhes a enzima monoaminaoxidase deixando esta de lhes desactivar os neurotransmissores norepinefrina, serotonina e a dopamina das fendas sinápticas no sistema límbico. Invejável tal acontecimento bioquímico. Num impulso imediato o leve e impiedoso machado da minha colecção ergue-se pendente sobre a minha cabeça. O olhar atemorizado das crianças marca o disparo da adrenalina. Indefesas agarram-se uma à outra, tementes. Num instante o pesado machado corta o ar e o rapaz na diagonal acabando por também atingir fatalmente a jovem. Os dois bocados de rapaz abanam vigorosamente ditando as últimas contracções e espasmos musculares. A rapariga, ainda viva por momentos, esvai-se rapidamente em sangue. Duas crianças jazem agora sobre a calçada branca. A chuva mais grossa aclarava o sangue espalhado e lava o aço da minha arma. Olho tristemente para o que fizeste. Amanhã tratarei de contratar o melhor dos advogados para informar o tribunal que não tiveste culpa. Direi que fraquejaste um bocadinho mas, eles nem contestarão porque serás sempre Tu. A guarda nacional aproxima-se e reconhecem-me cumprimentando com grande respeito e felicidade. Do veículo tiram lenços perfumados para que limpe as mãos confortavelmente. Ouço-os perguntarem-me preocupados se preciso de transporte até qualquer sítio para mudar de roupa e me secar. Recuso a gentileza e peço-lhes para limparem o passeio e também que entreguem uma boa maquia monetária aos pais para lhes pagar os filhos perdidos. Ficam surpreendidos e satisfeitos com tanta caridade de minha parte. Confirmam que cumprirão as minhas ordens e voltam a insistir se não seria melhor levarem-me a algum sítio em que me possa mudar para não seguir com as roupas manchadas. Recuso mais uma vez dizendo que apenas quero terminar o meu passeio e sigo, com uma calma agora profunda e aliviada. As ameixoeiras de folha vermelha estão imóveis. Para que foste negligenciar as minhas reservas de carinho e bondade? Podes e queres sempre evidenciar o meu lado terno mas acabas sempre por escolher o maquiavélico. As portas gigantes abrem-se e as empregadas da casa tratam de mim freneticamente. Vejo-Te ao longe a descer a última escadaria da entrada. Adoro esse vestido com fatias de pérolas cosidas pois parece as escamas de um peixe de diamante. Para sereia só Te falta a cauda de barbatana. Agarras em mim rapidamente e rodopias-me caindo na sala do chão de almofada. Tocas-me com o teu nariz, ainda húmido do banho, no cimo da minha testa e desces por mim abaixo até que, as pontas dos dois narizes se tocam e então me beijas cavernosamente. Adoro esse Teu hábito. A Tua saliva sempre foi a droga que mais me viciou. Alimento-me dela para viver e deixar viverem. Lembro-me de Teres prometido dedicar a Tua vida à honrosa tarefa de me tentares controlar. Na altura era um insignificante potencialmente poderoso. Hoje sou um poderoso potencialmente insignificante. A religião cristã considera-Te a primeira santa viva e não há um humano que não Te conheça. A Tua fama só é igualada pela minha. Todos os dias rezam para que vivas e para que continues a meu lado. Pensar que o início foi tão conturbado. Mergulhávamos em lagos de insultos. Mas na altura a dimensão do nosso amor era outra. A boa sanidade do nosso amor ainda não afectava o mundo. Ainda não viviam apenas para segurar o Teu amor por mim. Cientistas criaram um sol eterno artificial para o nosso território só para que pudéssemos viver em perene primavera. Leis foram criadas para proibir sob pena de morte quem se aproximasse de nós sem sorriso e sem alegria. Quando começou o nosso amor? Muitos anos à frente!

quarta-feira, abril 13, 2005

Fim!?

É com grande pesar que, reconheço que a minha escrita está a alastrar o que começou por ser uma pequena e simples fenda. Em breve, possibilitaria a intrusão numa caverna que deve permanecer inacessível. Com grande desgosto golpeio o último dos juncos falantes. Não voltará a bradar, a um mar demasiado salgado, que certas liberdades só se encontram na jaula mais complicada de irromper. O fogo é bonito de ser admirado e por vezes é confortável mas, nunca se poderá tocar com sanidade. As chamas nunca nos temeram! Apenas são incompatíveis com a nossa existência. Simplesmente não se toca no fogo. Os mais ousados brincam com ele. Os incautos tocam-lhe e queimam-se. Os incautos, após o percalço retiram, rapidamente, a parte do corpo queimada e fogem dele percebendo a magnitude da disparidade de existências. Emular por imolar. Não! Impossível! Talvez… Não voltará a aparecer aqui uma única palavra enquanto este devaneio não atingir cem cicatrizes. Descreve a bíblia das probabilidades que tal não acontecerá e, como tal, será lógica uma despedida e infinitos tributos a almas que por aqui se vislumbraram.

sábado, abril 09, 2005

Concha Rosa

Compeço! Rodopiaste-me vaga e levemente belicosa.
Amainaste imensuráveis ardis que te velavam em mim.
Transpuseste variados limites que te comprometeram.
Abalançaste patrimónios que ultrapassavam tua peste.
Relampagueante, seguias abnóxia teu oculto itinerário.
Indecisa marcada elevavas as mãos sinalizando o alto.
Negligenciavas marcas desdenhantes nos céus claros.
Agora teu nome perde-se algures em início de versos.

É tempo de mudança, abrir portas a novas bonanças!
Sempre acreditando que tempestades permanecerão!

Brincando, iniciaste a abertura de teus portais oculares.
Utopia já lobrigas e o estrambótico perdeu o seu étimo.
É assim que escrevo para que digladies na sua acepção.
Deícticas sofreguidão em busca do recôndito buzilhão.
Argaço! Seja a essência a possuir-te e não o acessório!

Firma pela alvura de afecções, jornadeia-te costurada!
Idilista serei e idiopática serás! Arrebatada no volume!
Xaroposo descensionalmente, te fruirei concupiscente!
E, verticalmente, desenterrarás a minha ideia sobre ti!

terça-feira, março 29, 2005

Exórdio

Acordo com a sensação que vai ser um bom dia. Sinto o peso do rechonchudo cão a meus pés. Sim, vai ser um bom dia. No espelho está um rapaz confiante e com o cabelo de acordar. Sempre me fascinou aquele cabelo de acordar. Seria parecido com um redemoinho em águas, terramoto em terras ou um belo tornado em ares? É apenas um cabelo despenteado. O grau de entropia revela-me a intensidade da noite passada. Num ápice o pijama é atirado para cima da cama. O cão observa-me atento. Na sua cabeça intriga-se uma possível saída. O meu peito brilha com o reflexo de luz refractado pelo espelho. Pequeno espelho. Não me deixa ver todo. No meu quarto próprio terei um bem maior e bem mais requintado e ele, já existe. Em cuecas, sento-me e ligo o monitor do eternamente ligado computador. Três pessoas contactaram-me enquanto dormia. Organizo os arquivos recebidos. Dedico algum tempo ao e-mail. É o meu trabalho. Deixo a gravar o CD com algumas músicas que seleccionei ontem. Esfrego os olhos e a testa. Abano a cabeça e destroço o cabelo. Perto do belo candeeiro antigo um verde marcador desperta-me a atenção. Banho. Vagarosamente, percorro a toalha por meu corpo, vigorosamente. Lentamente, o bocado de tecido vai absorvendo e retendo o líquido que pendia e tendia em meu corpo. Estou gelado. Pego no marcador e um recado, a verde, te escrevo, perto de cada mamilo. Não referiste que gostavas de jogos psicológicos? Bem-vinda ao meu mundo! Acredito que a tua curiosidade seja suficiente para despertar a tua ousadia. A chuva intensifica o castanho da terra. As plantas vingam aceleradamente ao passo da crescente turgescência das suas células. Visto-me e saio perfumado. O carro segue a sua rota, cauteloso, pelo piso molhado. Quilómetros passam. Até agora a rota era familiar. A partir de agora a rota não é familiar. A atenção redobra. Placas informativas são lidas preocupadamente. Ao centro cheguei e agora, vou seguindo as pequenas pistas que me deste, com a ajuda de habitantes locais. Por fim avisto-te ao longe. Ainda não me viste. Estaciono o carro. Saio. Dirijo-me a ti. Já me viste. Diriges-te a mim. A minha marca mostra-se. Um abraço substituindo dois beijos surpreende-te. Um abraço diferente. Um abraço extraordinariamente firme, seguro e envolvente. Um abraço especial que só poucos podem dar. Sim. Um abraço, lento e excitante, amarra-te a mim por tempo indefinido. Um tempo realmente indefinido. Nos teus olhos surgem as primeiras impressões percepcionais sobre a minha presença. Engoles ligeiramente em seco. Imagem portentosa. Nos teus canais ópticos travam-se violentas guerras. Venceu a razão. Felizmente. Inauguras um diálogo bem nutrido. Com um arrojado braço a reforçar as tuas costas, segues a meu lado em direcção ao carro. “Onde vamos? Não sei. Não sabes? Então, tu é que conheces a zona! Vamos até um sítio qualquer sossegado e bonito.” O carro move-se anormalmente lento pelas ruas. O carro respeita estranhamente as distâncias de segurança. Melancólico, como se estivesse a chamar um sol que teimava em não aparecer para o secar. Sorrisos, olhares e palavras. Uma boa adaptação e integração. Um parque com árvores estaciona à nossa frente. O som do puxar do travão de mão garante o cessar da deslocação. Viramo-nos um para o outro. Conversas despoletam outras conversas. Meia hora passa. A chuva teima em reter-nos fechados. Perguntas-te “Queres passar para trás? Para estarmos mais pertinho um do outro?” e eu aceito, acenando com a cabeça. O mais depressa que conseguimos, saímos e entramos atrás. A chuva era bem grossa. Sorrimos um para o outro. Tirei o pesado casaco castanho, mostrando uma camisola fina verde tropa semi-molhada pela chuva. Encostamo-nos o mais que pudemos e abraçamo-nos. Os teus olhos brilhavam preocupados. Não era esta a face a que estavas habituada quando estavas abraçada a um rapaz. Perguntas-te se te queria beijar. Um olhar fixo cada vez mais perto impregna as nossas almas. Os lábios tocaram-se devagarinho e de repente, numa explosão de energia, devoramo-nos com sofreguidão. Intervalo para respirar, ufa! No meio de risos felizes perguntamo-nos mutuamente se tínhamos gostado. Devagarinho, ambicioso, sigo para nova explosão de sabor. Leves ondas transparentes de saliva brilham em torno de nossas bocas. Afundamo-nos pelos bancos abaixo e exploramos, perdidamente, territórios bucais recém-descobertos. A comoção era serena mas imparável. Um bocado mais calmos, recomeçamos a falar. A minha mão, hipersensível, começa a viajar numa longa jornada pelo teu corpo e, para meu espanto, a tua resolve também revolver as cinzas que formam o meu corpo. Por baixo da tua camisola, deslizo agora pela tua pele directa. Um mar vermelho submerge nas tuas faces. O ambiente aquece, sentados agora no chão do carro. Completamente loucos, tocámos partes intimas sem as ver. Só hoje me apercebo o quão desconfortável pode ser um carro por maior que seja. Eroticamente, aproximas a tua mão do nariz apreciando o meu aroma. Com grande indiferença soltas um “é bom”. Com grande divertimento devolvo um “sua taradinha”. Sorrindo sensualmente ripostas “e tu? não queres sentir o meu odor corporal?”. Atraído pela ideia, fecho os olhos e chego a mão húmida ao nariz e um odor exalado, forte, doce, ameno e apetitoso, lentamente, volatiliza-me a sensibilidade. Com uma agressividade controlada empurras-me contra a porta, encostando-me e possuis-me a boca. Atinges em mim um transe uno e característico. Uma preguiça que me escorre, friamente, pelos semi-cerrados olhos. Peço-te que te encostes a mim. Os meus braços pendentes agora sobre ti. Assim ficamos horas e horas enquanto o dia desaparecia. A noite pulou sobre o dia. Hora de terminar. Perguntei se nos voltaríamos a ver ao que tu respondeste com um reconfortante e seguro “Sim! Claro!”. Longo e calminho beijo de despedida…

domingo, março 20, 2005

Pinhal

Sentado na varanda, de costas para o sol, vejo o fumo dissolver-se e escapar-se, por uma frincha da porta, para dentro de casa, arrastado pelo vento. Vislumbro, através do vidro escurecido pelo tempo e pela falta de limpeza, as minhas cuecas brancas imaculadas pousadas junto do resto da roupa agrupada na mala. Observo o propiciar do fim do cigarro. As últimas cinzas caiem-me sobre as calças azul-marinho. Largo o filtro e ele cai e rola até cair lá abaixo. Levanto-me e perco-me só mais uma vez naquela paisagem que marcou todos os meus dias. A perpétua oliveira continua a representar o seu espaço. As pedras permanecem imperecíveis, os gaios eternamente agitados no velho amieiro e os milhafres muito altos na ronda pelas presas. As águas correm monotonamente como sempre correram e correrão. Entro. O teu sorriso mal pregado na fotografia. Parabéns por conseguires. Fecho a mala. Hora de partir. Desço a escada, saio e pouso a mala no velho amigo e companheiro de quatro rodas. Sempre presente. Volto lá dentro, fecho todas as portas e portadas e desligo a água e a electricidade. Hora de ir. Solto um último suspiro para aquele ambiente que tão bem me acondicionou no passado. Saio cabisbaixo. Tempo de ir. Dentro do carro ligo a música e começa a viagem. Paro na primeira gasolineira e atesto o depósito pois será bem necessário. Opto por seguir pelas estradas nacionais de modo a poder parar e conhecer novos sítios. Janelas e tejadilho aberto, música alta e um sorriso cansado agrafado na minha face. Aproximo-me de Aveiro e sigo em frente. Quilómetros de mundo mudam sucessivamente no meu horizonte. Uma bela rapariga de cabelos negros, olhos verdes e sardas pede boleia na berma junto a duas grandes malas e uma de tamanho mediano. Contrariando o hábito, encosto ao passeio. Observo a facilidade com que coloca as malas na bagageira. Certamente estão vazias. Certamente os interesses dela não seriam o transporte. Possivelmente iria ser assaltado. Muito não levaria. Possibilito a sua entrada. Reconforta-se no banco. Girando para mim e, sorrindo encantadoramente, atira-me um fabuloso olá. Sorri para ela e olhando para a frente, recomecei a viagem. Não me perguntou para onde me dirigia nem me disse qual o seu destino. Era claro que algo estaria planeado acontecer-me mas, não importa, que aconteça. Passando por uma estrada resguardada por ancestrais plátanos ela olhou para mim e em mim fixou o olhar. Espantada com tanto silêncio perguntou meu nome. Desviei o olhar para ela, voltei a sorrir e ela também sorriu retraída. Olhou de novo para a frente convencida numa possível mudez minha. Era mesmo deslumbrante e a sua voz era aconchegante. O olhar distante revelava agora uma certa preocupação. Todo o seu determinismo havia sido abalado. A pressão crescia no seu pensamento. Premeditava as suas vontades. Propiciava-se forçadamente o seu acto. Suavemente tirou uma arma do bolso do leve casaco de pele tingido de branco. Era uma Star calibre 6 de 35 mm, falsificada. Fora em tempos uma pistola de alarme e agora, ilegalmente transformada, permitia o uso de balas. Gritou ameaçadoramente, com a arma em riste, “continue e com juizinho”. Levantando os braços e bocejando, espreguicei-me melancolicamente. Voltei a segurar o volante e olhei para a rapariga sorrindo uma terceira vez. Desta vez, não recebi outro sorriso, apenas um olhar que denotava uma desconcertação terrível pelo meu procedimento despreocupado. Procurando e descobrindo com o olhar, ordenou-me que entrasse num pequeno atalho de terra batida. Obedeci. Aos solavancos chegamos a uma clareira na orla de um pinhal, devia-mos estar perto de Leiria. Gritou para eu parar. Gritou para eu sair do carro e saiu em seguida. Tremendamente bela. Não deixando de me observar abriu a bagageira e retirou umas algemas e uma corda. Atirou-me as algemas, disse para eu fechar um dos aros, pôr os braços para trás e esperar e assim o fiz. Dirigiu-se a mim sempre com a arma em punho. Fechou o segundo aro imobilizando-me os braços. Dirigiu-me até ao banco de trás e sentou-me. Descalçou-me, tirou-me as meias e as calças. Rasgou-me a camisa azul aos quadrados brancos. Olhei em volta e sorri com aquela situação bizarra de me encontrar quase nu, no meio de um pinhal qualquer, desconhecido e acompanhado de uma bela mulher armada. Ela, com um sorriso satisfeito, percorria-me o corpo com o olhar, parecia gostar do que via. Olhou para mim e sorrimos um para o outro. As suas mãos vieram na minha direcção e uniram-se atrás do meu pescoço. Os seus dedos, com a maior das gentilezas, brincavam, enrolando e desenrolando os meus leves caracóis e assim ficou muito tempo, fitando-me sempre os olhos. Não entendia qual a razão para tudo aquilo. Não parecia querer roubar nada e para prazer, uma mulher tão atraente não precisaria de raptar um homem. Estava frio mas, a minha pele fervia. Chegou-se a mim e devagarinho beijou os meus lábios imóveis. Beijou. Beijou. Continuou a beijar com um nível de agressividade crescente. Os dentes cravaram-se no meu lábio inferior. Senti um leve sabor agridoce, sinal que tinha conseguido romper-me o lábio. Sangue desprendia-se agora de mim aos pouquinhos. A sua língua não largava a minha ferida como se estivesse a alimentar de mim. A sua língua apoderou-se da minha boca. Parecia querer sufocar-me. Imóvel, a minha respiração tornava-se mais intensa. Só conseguia respirar pelo nariz. Sentindo isso apressou-se a apertar-mo com os dedos finos e elegantes. A língua enorme continuava a chicotear dentro da minha boca. Senti a respiração nasal dela quente e ofegante. Inclinei um pouco a minha cabeça. A minha homeostasia entrara em estado crítico. Mais um pouco e teria que usar a minha força para a afastar e poder respirar. Afastou-se voluntariamente. Miramo-nos com respirações descontroladas e desesperadas. Um fio sangrento escorrega pelo meu queixo. Aproximou-se e absorveu-o numa lambidela. Excitado com o fascínio pelo meu sangue aguardo a tua próxima reacção. Sentas-me de novo no banco e empurras-me deitando-me. Ouço “não te mexas!”. Sinto-te procurar algo na mala. Abres a porta atrás da minha cabeça. A tua cabeça paira sobre a minha, a sorrir. Beijas-me muito calmamente. Os teus lábios fixam-se aos meus. Tens na mão um pano de seda negra. Obturas-me a visão, vendando-me. Quando se desliga um sentido, a energia desse sentido distribui-se pelos outros, fortificando-os. Uma substância qualquer moldou-se confortavelmente aos meus ouvidos. Uma tentativa de me isolar do mundo? Uma mole leve e suave apertou-me o nariz. Esperei, com as mãos e pernas presas, no escuro silêncio. Sentia-me desprotegido e nas tua mãos. Assim fiquei mais de uma hora. Não te ia estragar os planos. Se calhar, já estás bem longe. O meu corpo sobre os meus braços é bastante incómodo. Imóvel, sinto uma fonte de calor perto da minha cara. Destapas-me o nariz e um aroma intenso e marcante invade-me. Concluo ser o odor mais profundo do teu corpo. Volto a sentir-te apertar-me as narinas. Sinto a palma da tua mão deslizar pelos pêlos do meu peito. Brincas arrancando um por um de vez em quando. Brincas com os meus mamilos, desenhando círculos com os dedos, em sua volta e terminas com uma mordidela. Intervalo. Aguardo algo sem saber o quê. Inesperadamente, um pingo fervente cai, solidificando no meu peito. Estavas-me a queimar com cera? Mas que tipo de mulher tem prazer com tal perversidade? Outro pingo marca a minha pele e mais outro. Dá-te prazer a humilhação? Continuarei imóvel. Não vencerás. Sairás perdedora do jogo que tu própria criaste. Continuas, incessante. Pontos localizados de ardor rompem pelo meu corpo. Toda a dor que sinto não sai do meu pensamento. Não vês em mim o mínimo sinal de mágoa. Desgraçada! Mesmo no mamilo! Que malevolente! Sinto pedaços de cera acumulados sobre mim em camadas. Novo intervalo. Fico temente pela nova surpresa que certamente me espera. Brutamente, tiras-me os tampões dos ouvidos e arrancas-me a venda. Já quase tinha anoitecido. Vislumbro-a nua, corada, esbaforida, desesperada e descontrolada. A bater no meu peito, grita-me “porque não sofres tu? queimei-te e nem reclamas-te, nem sequer um movimento teu? porque não és como os outros? porque não me falas? és mudo? Sorrio para ela. A venda é me novamente colocada. No intervalo. Ouço movimentos na mala do carro. Sinto uma placa, uma banda metálica gelada a tocar-me no pescoço. Uma faca? Sim, uma faca… Uma faca que vai percorrendo o meu corpo com grande destreza. Numa onda sucedânea os meus pelos tornaram-se hirtos, num arrepio total. A faca continua pelo meu ventre abaixo e num ápice dois cortes nas cuecas, possibilitam a minha completa nudez. Sinto uma mão a agarrar-me. Sinto uns lábios a beijar-me. Sinto uma boca a engolir-me. Sinto um corte doloroso. Sinto-a novamente a sugar-me. A sugar-me. A sugar-me. Não podia aceitar mais o jogo. Tinha atingido o limite! Usando a minha força, rebento as algemas recorrendo aos meus braços, poderosos. Arranco as cordas que me envolvem as pernas. Tiro a maldita mola que me aleija o nariz. Arranco a venda. Olho, raivoso e nu, para a rapariga assustada com a minha súbdita mudança brusca. Agarro nela e deito-a em cima do carro, com a mão no centro do seu peito e berro-lhe “não entendes que não podes fazer sofrer quem já tudo sofreu? porque me escolheste?”. Extasiada e alienada olha para mim atenta e com a boca manchada de sangue, engole em seco e responde-me baixinho “adoro a tua voz”. O quê? Adoro a tua voz! E eu não te escolhi, apenas foste o primeiro a parar! Se tivesse escolhido não teria tido tanta sorte como tive! Que situação de loucos, estou aqui em cima do carro, nua e de pernas abertas, de noite, num pinhal desconhecido, vítima da minha própria vítima, sem rumo nem destino e perdidamente apaixonada pela tua existência! Que vais fazer? Chamar a polícia? Não. Vou apenas vestir-me porque está muito frio. Veste-te também. Escolhi a roupa da mala, vesti-me e com a mala dos cuidados médicos tratei o corte. As cuecas brancas tingiram-se levemente de encarnado. Fechei a mala e vi-a vestida e sentada no banco ao lado do condutor. Onde vais? Contigo! Onde? Para onde fores! Está bem… Para a capital? És tu que mandas em mim agora! Decide! Sou eu que mando em ti? Então porquê? Por ter uma voz que te agrada? Não. Mandas em mim por saber que existes. Hum. Está bem… Ligo o carro frio e arranco derrapando na areia e caruma do pinhal. Olho para ti e pergunto, sorrindo, “sabias que és muito bonita e atraente?”. Ela sorri e volta a brincar com os meus caracóis, perto ao pescoço, e diz “eu acho-te lindo e atraente!”. Continua a enrolar e desfiar os meus cabelos. Chegamos à entrada para a estrada nacional e nela entramos e seguimos sem rumo predefinido. Uma dúvida rompe em mim e sem poder resistir lanço no ar, “nos teus planos, que me farias no fim de satisfazeres as tuas perversidades?”. Sorrindo… Desenlaçando os caracóis… Aproxima-se… Trinca-me a orelha e sussurra, sibilante… Matava-te!

terça-feira, março 15, 2005

Incontrolável

Como um cavalo desenfreado corro por ti e em ti e por ti e acima de ti e de ti e tu tentas alcançar-me e corres e olhas para mim desesperada e só vês partículas que se movem com um vento que cisma em abanar o teu cabelo mas não é o vento sou eu e cada vez mais rápido e cada vez mais perto e a saliva que te deixo nas lambidelas que te dou na face esquerda inferior do pescoço secam antes que te possas aperceber que elas existiram e agora sim toco-te e tu nem a minha mão vês conseguindo esfregar a tua pele milhares e milhares e milhares de vezes a uma velocidade estonteante e infinitamente não sabendo a razão pela qual não me impedes de continuar a esfregar mas sei que a dor é insuportável e dou conta que estou a pegar fogo porque a fricção é tanta que a energia emanada está a ser convertida em calor e os teus neurónios ainda nem tiveram tempo de te indicar que te estou a esfregar e tu já estás numa aparente combustão espontânea e no próximo segundo vais dar conta que estás a arder enquanto eu já dei e entretanto posso parar e correr a escrever este texto descritivo da situação ao mesmo tempo que olho a minha mão queimada em carne viva e vislumbro o luzidio tecido ósseo que agora se escapa por milhares de feixes musculares agora cozidos que me preenchem e fazem mover e fazem mover rápido muito rápido mesmo e agora vivo meia vida a cada segundo teu e agora tu vais precisar de parar para respirar quando leres isto e não podes continuar a ler esta frase em voz alta sem fazeres uma pausa mas a frase não acaba e anseias uma virgula ou um ponto ou qualquer interrupção que te permita respirar e ela não aparece e é melhor desistires porque não a vais ver e também não vais conseguir ler ate ao fim a esse ritmo e é melhor não me tentares acompanhar por isso desiste mas desiste já porque isto é a minha escrita e não a escrita dos outros e aqui só eu leio como tem que ser e tu limitaste a imaginar o que queria eu transmitir com todos estes devaneios que te atraem mas te atiram despedaçada para o fundo dum poço de confusão e tu sabes que aqui só eu mando e ordeno porque este é o meu mundo e é também o mundo do qual te dependes e te despedes perpetuamente porque não aguentas mais as minhas carícias agressivas e o meu amor que te odeia e a maior parte das vezes sentes que eu não estou lá mas estou e observo-te e vivo-te porque eu não tenho vida só me restando viver a tua e e e e e e sorrio à velocidade da luz!
Apercebeste-te agora que te queimei?

domingo, março 13, 2005

Sentes?

Rancor. Sopro forte, da minha profundidade.
Tento ferir-te com poeiras tóxicas expiradas.
Escuto o teu sofredor sufocar. Estás a sentir?
Odeio as lutas que manténs pela diversidade.
Só espero que estejas com as roupas rasgadas.
Regadas de gasolina. Fósforo. Estás a sentir?
Os abutres pairando sobre ti, com suavidade.
Provarão tua carne, rasgando-a com bicadas.
Gostarão do sabor venenoso. Estás a sentir?
Teus ásperos seios na mais dura esterilidade.
Quebram e racham como raios em trovoadas.
Manchas e sinais para cunho. Estás a sentir?
Os teus pés acabam por perder a mobilidade.
Gemes ao olhar tuas cruéis mãos estropiadas.
Bates palmas partindo dedos. Estás a sentir?
Adormeces como que a provocar ansiedade.
Teu corpo a queimar nas chamas afogueadas.
Bonito cheiro a carne assada. Estás a sentir?
Provo os teus sabores e abismo a qualidade.
Veneno que provoca adições desmesuradas.
És melhor morta do que viva. Estás a sentir?
Guardo teu sangue aquando da necessidade.
Perco parte nas aves de fomes incontroladas.
Eras avermelhada no interior. Estás a sentir?
Ouço teus gritos e teu desespero por piedade.
Memórias retrocedem e avançam invocadas.
Eras o que fostes, és o que és. Estás a sentir?
Rimo nestes versos e aguardando sonoridade,
escrevo metricamente palavras misturadas que
procuram cinzelar teu coração. Estás a sentir?

quinta-feira, março 10, 2005

Estrelinhas

Sorrisos esperam-me.
Atabalhoado e em frenesim, desloco-me lentamente por ti. Não cheguei a entender se o meu mau estacionamento fora casual, ou uma mera incitação inconsciente a propulsionar o arranque da noite. Tranquila. Serena. Quem vê o teu desempenho considera-te segura e marcadamente caminhante. É a ilusão da aparência. Eu pareço abstracto, alienado, numa deambulação pouca atenta ao que me rodeia. Sim, é a ilusão da aparência. A ilusão da aparência. Suavemente vais me olhando. Absorvendo-me. Tentas arrancar o que estou a sentir. Descobrir uma expressão facial que me desmascare. Desistes. Nesse aspecto a minha demarcação é inviolável. Todos tentam. Todos cessam. A noite não estava fria como nos últimos dias. A noite estava deliciosamente amena. A noite. Levemente apreensiva com a minha condução instável. Estranhamente confiante na segurança que ela transpira. Suavemente diluída pela música passiva e cicatrizante que aromatizava e perfumava o ar que respiravas. As ruas do Porto, à noite, são estranhas. A luz ténue que as cobre, como uma manta alaranjada que a aquece, no silêncio do seu repouso. A tua preocupação por mim agoniza o meu pensamento infatigável, que laborioso, interroga-se eternamente, na odisseia, à descoberta da razão pela qual desenvolveste tanto carinho por mim. Tanta amizade baralha o meu sistema de leis vigentes, num mundo onde tu, pareces conseguir pôr tudo em causa. És tu. Continuas ao meu lado. Amiga como sempre. Amiga. Constantemente, obscureces os teus sentimentos na esperança que no escuro, não os vejam tão facilmente. O teu coração é demasiado vulnerável para estar fora da caixa que o embala. Tocante, muito tocante, devera tocante a importância que dás a certas coisas minhas. Coisas essas que poucas pessoas dão valor. Uma pequenina alcunha meiga que te chame. Um mero carinhoso desenho infantil que te dedique. Que belo mundo é o teu. Estacionado. Restaurante. Estás à vontade. Graciosamente, separas a carne dos ossos. Quem me dera ter esse jeito. Elegantemente, levas o garfo à boca. Olhas pela janela. Fatigante luz laranja que não arreda pé das ruas. Obras. Obras. Porto. Bebes água. É engraçado ver-te comer. Comes devagar. As ondas negras marcadas nos cachos dos teus cabelos. Assuntos de conversa? As preocupações do dia a dia. As mágoas. Os bons momentos. Saímos. Ruas. Carros. Semáforos. Ruas. Carros. Semáforos. Estacionado. Lojas. Escadas rolantes. Pessoas. Lojas. Escadas rolantes. Pessoas. Nove e vinte e seis. O filme tem hora marcada às nove e vinte e cinco. Mais uma coincidente sorte do destino? Bilhetes. Sentamo-nos na parte superior a trinta segundos do início. Sorridente, percorro a sala e o seu ambiente com o olhar. Era familiar, mas, distante no meu tempo. Escuro. Quente. Grande ecrã. Aroma a baunilha das pipocas. Sim, estávamos num cinema. O filme vai começar. Os ânimos das pessoas, atrás de nós, vão diminuindo. Começa bem. Não me desilude nas minhas previsões. Como um barco numa tempestade, a agressividade do filme balouçava. Meio já tinha passado. Estava num dos momentos mais violentos. Estendi-te a mão. Entregaste-ma. Era engraçada a sensação de ter a tua mão na minha. No escuro, fui devagarinho, perspectivando a anatomia da tua mão. Tomei consciência que era menos de metade da minha. Os meus dedos eram o quádruplo em grossura dos teus. No espaço invisual desenhei. Sentia as pontas dos teus dedos. Sentia as unhas que tinhas em ponto médio. A minha mão incessante, divertia-se com o novo brinquedo. Tocava-te levemente. Afastava-me. Fazia festinhas dedo por dedo habilmente. O teu pensamento desprendeu-se um pouco do filme. Não olhavas mas, eu sei que dedicaste atenção à situação. Os minutos passavam. Habituaste-te. A tua atenção voltou-se novamente para o filme. Sentia a tua mão ficar tensa ou descontraída de acordo com as cenas do filme. Era como ouvir música acompanhada de fogo de artifício cronometrado. Sentia as tuas vibrações. Absorvia os teus receios. Estavas muito mais relaxada agora. O teu dedo já brincava com o meu. Afastei levemente a mão na esperança que a tua viesse procurar a minha. Distracção minha. A tua maneira de ser nunca consentiria tal acto. Procurei novamente a tua mão no escuro. Agora já sorria. Era engraçado ver o filme. Era engraçado brincar com a tua mão. Para qualquer pessoa que leia este texto, certamente, por esta altura, já estará meia ensonada mas, gosto de me prender nos assuntos que mais me importam. Jogos lógicos, perversos, psicopáticos, sanguinários continuavam a passar à frente dos nossos olhos. Somos tão estranhos. Como podemos achar genial uma forma de pensar e existir tão bárbara e sanguinolenta como aquela? O homem começara a cortar o seu pé fora e, apeteceu-me beijar-te a mão. Nunca gostei de resistir às minhas vontades por isso, com um bocado de resistência tua, beijei-te a mão. Não deste qualquer sinal de ti. Ri-me com aquela situação. Sabia que tinhas o pensamento em fulgor. Sabia que até estarias corada. Sabia que tinha baralhado todo o teu sistema. No entanto, sempre muito calma e impávida. Eu mal conseguia suster a vontade de explodir em gargalhadas. Adoro a tua maneira de ser. É extremamente complicada na sua simplicidade. A tua amizade é um desafio lancinante. A tua bondade e inocência são incalculáveis e inqualificáveis. Tens o coração mais puro e generoso que já vi. Tu sim, tens boas intenções para o mundo. Voltei a procurar a tua mão estando esta, agora, tal como esperado, muito mais receosa e calculista. Os teus dedos escapavam-se por entre os meus. O filme aproximava-se do fim. Sentia o teu entendimento ao rubro. O final estava a emocionar-te. Aqueles jogos mentais motivavam-te e forçavam-te a ir um pouco mais longe na tua concepção de ideais. Terminou repentinamente. Cá fora. Outro dos sorrisos que me faz viver. Sentada com amigos. Personalidade indescritível. Mesmo para mim. Nunca entendi como podes ser assim. Nunca encontrei ninguém minimamente semelhante a qualquer uma de vós. Personalidades distintas e exclusivas. Foste a única pessoa que insistiu em trazer-me para a realidade inabalavelmente. Hoje, penso no que passaste. Conseguiste resistir a inúmeros testes terríveis da minha mente. Superaste-os. Permaneces-te no tempo. Insistias quando te ordenava que desistisses. A tua diferença para os outros é fácil de explicar. Eles dizem vai. Tu dizes vem. Não sei o que viste em mim. Desde o primeiro dia que me fizeste sentir especial. A tua voz, os teus olhos, a tua maneira de ser são marcantes. A tua personalidade nasceu de uma mistura que ao acaso, criou uma combinação secreta fascinante. Tens necessidade de amizades. É demasiado fácil desiludir-te. Tenho orgulho em mim por continuar a existir na tua vida. Nunca me aproximaste verdadeiramente mas, nunca me deixaste afastar. Mantiveste uma distância rara e que, para minha admiração e espanto, se tornou estável. És das poucas pessoas em quem confio porque, reúnes características que me permitem assegurar-te como certa na minha vida. Sei que amanhã vais estar lá. Lutaste por mim e agradeço-te e respeito-te. Lidas-te com os meus extremos e não foi fácil. Tens a fera levemente domada. Sei as coisas com que sonhas e desesperas. Sei o que dás como certo. Saberei sempre coisas que tu pensas que não sei. É este o meu mundo. E tu sabes isso. Gosto, muitas vezes, de recordar todos os nossos momentos desde o início. Como é possível que o desfecho não tenha sido outro? És o portal para mundos fantásticos. Um deles descrevi-o em cima. Tu tomas conta de mim. Eu tomo conta de ti. Nem damos conta disso. Despedida. Vejo-me a percorrer a auto-estrada de madrugada. È diferente. Passa-mos lá milhares de vezes mas, de noite parece sempre que é a primeira vez. Quase não há carros. Gosto de ouvir os pneus a gemerem nas curvas. Gosto de sentir a aceleração centrífuga. Gosto de ouvir o carro a desligar-se.
Sois, sem dúvida, umas das maiores estrelas do meu céu.

sábado, março 05, 2005

Pequenina

Já não gostas de mim como gostavas, em pequenina...
Comprava-te bolachas de chocolate só para ver os teus olhos, pele de amêndoa doce, brilharem. Abrias a boca desdentada e gritavas adoro-te avô! É tão fácil comprar a amizade de uma criança. Belas criaturas essas que habitam o mundo. Sentavas-te no meu colo e eu, esforçava-me muito por inventar uma fábula estonteante, que te fizesse voar no mundo próprio da tua inocência mas, no fundo, eras tu quem me fazia sonhar. Não paravas quieta. Sempre a mexer. Causavas-me hematomas nas coxas com as tuas sapatilhas duras. Não importava. Os teus caracóis dourados batiam me nos olhos. Tentava ensinar-te o pouco que ainda hoje sei. Não te conseguia explicar a razão para a Terra ser tão redondinha. Perguntavas-me quem teria sido o homem que havia construído algo tão gigantesco e belo. Que te haveria de dizer? Se calhar sabias mais do que eu. Quando o fim-de-semana terminava e te via a partir à noite, abanando a mão, com os teus pais, ficava triste. A casa perdia o encanto. Maldita a solidão que preenche os meus tempos. Porque partiste? Porquê? Olho para a beirada da lareira, as tuas fotos continuam lá. Olho para o teu antigo cantinho, onde costumavas bordar e aí sim, tu já não estás. O padeiro acabou de trazer o pão quente. Ficavas sempre contente e ias, a correr, buscá-lo, para de divertires a ver a manteiga derreter dentro dele. Eu agora nem o como. Continuo a pagar ao padeiro apenas para não contribuir para o teu desaparecimento. Hoje, não vou escrever mais sobre ti, não quero voltar a ficar deprimido. Hoje em dia já não conheço a minha neta. Os caracóis dourados tornaram-se verdes. O teu corpo está perfurado por muitos pedacinho de metal. É aterrador. Até na língua tens uma dessas coisas que hoje em dia é moda. Ouvi os teus pais a lamentarem-se que até perfuraste os mamilos. Tristes novas realidades estas, que cismam em não caber no meu pensamento gasto e cansado. Vejo, por vezes, desenhos que marcaram definitivamente o teu corpo e que ousam aparecer quando te baixas. Fico estarrecido e empobrecido. Não importa. O que importa é que sejas feliz. Em pequena, brincavas com as minhas rugas, e rias-te muito por não teres também covinhas na cara. Era a pessoa mais importante para ti. Só eu tinha tempo para te dedicar a atenção que precisavas. Todos estavam sempre demasiado ocupados para te contarem uma história. Eras um empecilho que normalmente despachavam para mim e tu adoravas. Brincava-mos no rio, mostrava-te a diferença entre as espécies de árvores, apanhava-mos florzinhas e folhas. Bons tempos. Tempos que não voltam. Hoje vens ter comigo porque os teus pais te obrigam. Agora, para ti, sou um trapo velho. Já nada te ensino. Já não te faço rir. Chegas e metes-te no carro a ouvir barulhos indecifráveis que inexplicavelmente descodificas em música. Quando falas para mim, és ríspida e breve. Não sei que mal te fiz. Agora estou só condenado a esperar pela morte. Declaraste guerra ao mundo. Deves ter razão. No outro dia voltei a fazer-te uma boneca com uns trapos velhos que tinha, amontoados, no quarto dos arrumos. Ficou enorme. Entreguei-ta na esperança de te trazer de volta. Aceitaste-a e olhaste para mim com desprezo. Fingistes estar agradecida. Guardaste-a na mala do carro. Imagino o que tenhas feito com ela... É a actualização dos tempos. É notícia de que já vivi tempo suficiente neste mundo. Já não sou útil. Já não tenho direitos. O pouco respeito que me têm, persiste, apenas, por força do que conquistei no tempo e que ainda não me conseguiram retirar. É isso que eu sou. Um guardião de bens que a todos interessam. Só não abdico deles porque seria encarcerado num lar e aí pereceria. Se não fosse isso atirava-vos com eles à cara. Só agora sei a importância dos valores não materiais. Tarde de mais. O tempo não retrocede. Fiz a asneira que quase todos fazem. Não importa. Daqui a pouco tempo já nada importará. Só mais um bocadinho. Eu aguento bem.
Já não gostas de mim como gostavas, em pequenina...

domingo, fevereiro 27, 2005

Gaivota

Cabelos negros breu, serpenteantes ao sabor da gelada brisa marítima nocturna. O mar, especialmente agressivo, parecia querer alcançá-la ameaçadoramente num hipotético ajuste de contas de fantasia. Inabalável, constante, passivamente calma, movia-se pela banda superior do areal. Seus olhos negros pez, detinham um olhar por regra fixo mas, por vezes, num ansioso procurar de algo, deslocava-se pelo horizonte. O céu, lilás malva eléctrico, numa nuvem só, aveludada e aconchegadamente húmida que se contraía, furiosamente, no espaço. Movia-se, movia-se com um sorriso tão bem desenhado que, ninguém diria ser a dona do mal. As pontas do cachecol, branco sujo liso, pendiam sobre a sua camisola justa. Perfazia, metodicamente, duas voltas em torno do pescoço clarinho. Pára. Algo lhe desperta a atenção e prende o olhar. Uma pobre gaivota imóvel, saboreia as suas restantes poucas horas de vida, sozinha, encolhida, recolhida, retraída próxima ao muro. O seu bando já partiu. Abandonaram-na. Aproxima-se, sorrindo, do vulnerável animal indefeso recuando este, dois passos, assustado. Estende as mãos na sua direcção e, de tal estado crítico de saúde nem consegue fugir, sendo facilmente apanhada. Nas suas mãos sentia-a gelada e molhada. Soltava uns últimos gritos perdidos no rebentamento das ondas. Só a dona do mal conseguiria ter coração impiedoso a tal piedoso cenário. Num acto verberativo do mais indecoroso que nem resiste na imaginação, usando a sua força impetuosa arranca-lhe a asa esquerda. Torce, aperta, confrange, convulse, encurta, crispa numa dilacerante e aguda dor. Brandamente, as pequenas e macias penas brancas, turvam-se de escarlate num buraco criado no seu corpo. Sem a simetria que a caracterizava, nem uma gaivota parecia. Contemptível, lança a injuriada e imóvel ave para a aresta criada pela intersecção dos planos formados pelo areal e o muro. Meteu as mãos aos bolsos e como chegou foi como partiu, sorrindo com os seus cabelos ao vento como se tivesse praticado o mais honrado dos feitos. A gaivota soltava um abafado piar, piar, piar, de vez em quando.
Cabelos castanhos ouro, serpenteantes ao sabor da gelada brisa marítima nocturna. Passeava, serena, pelo passeio do outro lado do muro. Nunca tinha vindo a Vila do Conde. Tinha sido convidada por uns amigos que agora dormiam embriagados no carro. Estava triste. Os pais tinham-na magoado e por isso, decidira dar um passeio para pensar e para esperar que eles recuperassem para a conduzirem a casa. Passo a passo, revivia na memória os piores momentos da sua vida. Uma lágrima cortou-lhe a cara, arrefecendo, rapidamente. Sentia-se diferente. Não gostava que a maltratassem. Magrinha, contundida, sentou-se aleatoriamente no muro, na esperança que alguém se sentasse ao seu lado e a abraçasse, dando-lhe o calor que tanto necessitava. Ninguém apareceu. O mar mal se via. Estava muito calmo e silencioso como se não quisesse perturbar. O seu perfume exalado característico reunia aromas de esgotos, algas, iodo, sal e frio. Ninguém se via no horizonte. Era muito tarde. Altas horas da madrugada. Tinha medo que aparecesse algum tarado do qual ela não se podia defender. Tinha frio. Muito frio. Subitamente, sentiu uma presença por baixo dos seus pés. Algo mexia. Algo perturbava o silêncio. Algo pequeno. Correu até as escadas, curiosa, e dirigiu-se. Era a gaivota, desamparada, ainda vivia. Agachou-se, correu um bocado o fecho do casaco, recolheu-a com muito cuidado e aconchegou-a no seu peito. Condoída com tal estado dirigiu-se ao carro para tentar salvá-la. Estava muito longe. Caminhava pensando que a natureza era assim mesmo mas, não conseguia passar indiferente a tal sofrimento. Tinha que fazer algo. Questionava-se como teria o animal perdido a asa, recentemente, vendo o sangue ainda fresco. Seguiu, seguiu e a meio do caminho entendeu que ela tinha acabado de morrer. Acreditou que assim era o melhor. Parou um bocado. Três lágrimas cristalinas dividiram-lhe a face. Coitadinho do animal. O que deveria ter sofrido, sozinha, na imensidão do frio. Em homenagem à sua vida, agora finalizada, não a tirou do seu peito. A cabeça continuava fora do casaco, um pouco bamboleante. Triste, muito triste avistava agora o carro ao longe. Avistava também um vulto no nevoeiro. O seu coração acelerou. Estava sozinha. Seria alguém de mal? Tinha que seguir em frente. Nada mais podia fazer. Mais sossegada, constatou que era apenas uma rapariga linda, de cabelos negros, sorridente. Aproximou-se. Contente por estar agora mais segura sorriu para a menina. Estás aqui sozinha a estas horas? Sim. Tu também. Gosto muito de passear à noite longe das pessoas. Compreendo. Eu também decidi passear um pouco para reflectir na vida. Essa gaivota que levas, falta-lhe uma asa? Sim. Como sabias? Fui eu que a arranquei. Tenho a aqui guardada também dentro do meu casaco, vê. Como foste capaz de ser tão má? A gaivota já estava condenada à morte e já por isso, olha, apeteceu-me arrancar. Ainda por cima? Já estava condenada à morte e ainda aumentaste o seu sofrimento? Foste muito má. Devias te preocupar mais com o que os outros sentem, até mesmo os animais. Toma, guarda a gaivota morta e a sua asa e diverte-te a pensar no que a magoaste e fizeste sofrer. Ajudas a piorar o mundo! O mundo já não pode ser piorado! Hum. Pode sim! Sinto que já sofreste muito, mas, sabes, se nós nos deixarmos levar pela derrota e não fizermos nada para melhorar a situação como teremos o direito de criticar? Não quero falar mais contigo. Foste muito cruel! Adeus! Adeus. Guardou a gaivota morta e a sua asa respeitando o pedido e foi embora para casa. Viu ao longe a rapariga entrar num carro. Pensou nas suas palavras. Tentou esquecer. Abriu a porta. Entrou. Pousou as chaves em cima da mesa da entrada. Pendurou o casaco. Deixou a gaivota junto às chaves. Dirigiu-se à cozinha. Ligou a torneira. Esperou que a água aquecesse. Lavou as mãos com detergente para a louça. Adorava aquele cheiro. Secou as mãos ao pano. Aqueceu um copo de leite no microondas. Juntou muito chocolate em pó e açúcar até ultrapassar a saturação. Era assim o seu preferido. Bebeu o leite morno com chocolate. Arrumou o copo sujo e a colher na banca. Arrumou o leite aberto no frigorífico, o chocolate e o açúcar no armário. Foi para a sala. Deitou-se no sofá. Saltou de canal em canal. Àquela hora não dava nada de interessante. Desligou a TV. Levantou-se dirigiu-se ao quarto. Ao passar na entrada, viu a gaivota, pegou nela e inexplicavelmente levou-a para o quarto. Pousou-a em cima da sua mesinha de cabeceira. Olhou para ela mais um bocadinho. Pegou no pijama que estava pousado em cima da cama e numas cuecas negras que escolheu na gaveta. Correu até a casa de banho. Fez as suas necessidades. Escovou os dentes. Escovou a língua. Cuspiu a pasta. Bochechou com água. Lavou-se. Trocou as cuecas metodicamente como sempre fora seu hábito. Vestiu as calças do pijama cor-de-rosa. Vestiu uma camisola interior imaculada. Vestiu a camisola do pijama. Adorava aquele cãozinho com olhar triste que ela tinha no centro. Olhou para o espelho. Estava muito gira. Sorriu. Saiu e apagou as luzes. Ouviu o pai a ressonar ao passar no corredor para o quarto. Fechou a porta do quarto. Desligou a luz ficando apenas aceso o candeeiro da mesinha de cabeceira. Abriu a cama feita pela mãe. Lençóis de flanela. Mesmo a calhar. Sorriu. Ajeitou duas almofadas, deitou-se e cobriu-se. Olhou a gaivota. Desviou o olhar. Uma vontade de fingir amor irrompeu nos seus desejos. Fechou os olhos. A mão desceu pelo seu corpo. Tocou-se. Estremeceu. Engoliu em seco. O olhar fugiu para a gaivota. Assim não dava. Aborrecida, retirou a mão e ao de leve cheirou-a. Ainda sentia o cheiro ao detergente da louça. Saiu da cama descalça. Correu a lavar a mão e trouxe uma velinha. Compôs a o corpo da gaivota. Acendeu o isqueiro e com este acendeu a vela. Pousou-a junto à gaivota. Entrou na cama. Desligou o candeeiro. Tinha os pés gelados de ter ido e vindo sem chinelos. Tirou uma almofada. Acomodou-se na cama e nos lençóis. Aninhou-se formando uma bola com o corpo, de maneira a aquecer. Olhou a gaivota que jazia morta. Uma lágrima soltou-se. Já não chorava desde que tinha sido espancada em pequenina. Se eu fosse esta gaivota. Se eu estivesse a morrer. Se me tivessem arrancado uma asa. Sou horrível. Vou mudar. Vou mudar. Vou mudar.
Adormeceu, profundamente, perdida nas horas...