Nasceu. Era o primeiro. A importância era muito relativa. Dúvidas e incertezas não faltavam. Expectativas e ilusões também. Pairava um amor inocente, ingénuo ténue e fragilizado. O ar pesava, téfido, sufocava esmagando tudo e todos, como se o inferno estivesse prestes a abrir as suas portas ao mundo. Estava a começar o dia. Apareceu e era lindo e perfeito. Todos lhe chamavam de coisinha mais linda do mundo. As cabeças esfriaram. Começou a nova vida. Notavam-se pequenas diferenças, mas, se calhar, eram só fruto da novidade. A energia era demasiada. Dormia um terço do que deveria. Demasiado agitado. Comia tudo o que pudesse. Começaram-se a tatuar as primeiras características. Incontrolável. Agressivo. Birrento. Possessivo. Carente. Insaciável. Megalómano. No entanto, nada que não se aguentasse com um pouco mais de nicotina, e afinal de contas, tudo deveria passar com o tempo. A nova encomenda gastava muitos recursos. Dava muito trabalho. Consumia muita vida. Era estranho. Queria todos os brinquedos do mundo mas, quando os tinha, destruía-os friamente. Desmontava tudo sem voltar a reconstruir. A atenção tinha que ser máxima. Era esgotante. A simples queda e esquecimento de uma colher no chão, significaria todos os vidros partidos em minutos. Parecia um demónio. Todos os objectos tinham como função o mal e todos eram armas de arremesso. Era o ultimo a adormecer e o primeiro a acordar. Era atrasado mental porque se lhe davam livros para pintar, rasgava-os! Se lhe davam peças para encaixar em caixas, ele roía-as! As dúvidas surgiam! Ele não seria mesmo normal? Haveria mesmo algum problema que explicasse todos aqueles comportamentos violentos e inesgotáveis? Cresceu mais um bocado… Era um terror… Se visse um gato ou um cão atirava-lhes pedras. Não podia ter nada nas mãos sem destruir. Era muito atrasado, mas, por vezes, dava extraordinárias provas de inteligência. Construía jogos mentais muito avançados. Criava situações demasiado bem pensadas. Saltou de infantário em infantário. Só mesmo as freiras conseguiram aturar tal suplício. Questionava tudo incessantemente. Tão novinho e já perguntava o que desconheciam. Tanto estava no meio de todos, completamente histérico, como isolado, a um canto, na mais profunda das tristezas. Suspirava muito! Quando queria algo, eram forçadas a desistir e a entregar rapidamente. Quando recusavam, insultava-as, batia-lhes, gritava-lhes, instigava-as e engendrava os planos mais maquiavélicos para as prejudicar e as fazer pagar por tal insubmissão. Tanta revolta. Tanto ódio. Tanta agressividade. Tanta energia. Tanto rancor. Qual era a fonte de tal poder maligno? De onde provinha todo aquele inconformismo? Era indomesticável. Não podia ter um caderno como os outros. Não podia ter um desenho acabado. Tinha um grande jeito para desenhar mas, sempre que os estava terminar destruía-os. Não completava qualquer trabalho que fosse. O seu método era não ter método. Avizinhavam-se graves problemas de aprendizagem. O tempo passa. Precisa cada vez mais de atenção. Quando chegava da escola contava tudo. Mas não contava como os outros. Ele cansa e esgota as pessoas. Não dá para o ouvir. Faz-se de conta que sim, para ele não ficar triste, mas não dá para o ouvir... O comportamento dele é incontrolável… Recorre-se à violência… Nem assim… É um ciclo vicioso que propicia um silêncio que não deu gosto conquistar… Aumentam-se os maus-tratos físicos… Ultrapassa-se a fasquia do aceitável e tolerável… Queimaduras… Depressões ósseas… Cicatrizes… Hematomas…A consciência aperta e esmaga… Torna tudo pior… A infância passava e acabava… Se tinha existido…
O tal rapaz entrou para a escola. Continuava sem ter cadernos, sem dar atenção às aulas e muito menos fazer qualquer tipo de trabalho de casa. Inexplicavelmente tinha resultados relativamente elevados. Só se socializava nos intervalos. Fora da escola esta em casa. Admirava as pessoas ao longe. O demónio retraiu-se ao seu interior. Percebeu que se continuasse assim, não poderia ir muito longe, porque já não era um bebé. Já não eram aceites os seus comportamentos. Entrou numa fase intermediária entre uma solidão e uma aparente felicidade social. Sozinho era ele. Acompanhado era o que quisessem dentro dos possíveis na arte da representação. Entrou no mundo virtual. Ficou fascinado com aquele ambiente tão confortável e apetecível. Ali tudo era mais fácil. Não havia necessidade de complexos e frustrações. Ali ele reinava. Em pouco tempo assentou ferros. Montou negócio. On-line, apesar de ser apenas uma criança, ele podia facilmente passar por um empresário adulto. Avançou bastante a esse nível. Paralelamente construiu lá a sua vida social. Usando das suas capacidades de percepção extra-sensorial e de um magnífico arquivo fenotípico que tinha construído, acedia directamente ao pensamento e sentimentos das pessoas pelo mundo das palavras. Em alguns minutos entendia grande parte da existência de alguém. Era confuso porque ninguém entendia como isso era possível. Afirmava coisas sobre as pessoas quando nunca as tinha visto. Assustadoramente, acertava a maior parte das vezes. Alguns usavam estas capacidades para seu benefício próprio e em troca davam falsos carinhos. Assim foi vivendo. Dividindo o tempo entre a virtualidade e a realidade (escola). Mas as pessoas faziam-no muito triste. Ele conseguia ver a verdadeira natureza humana. Defendia ideais impossíveis e utópicos. Ninguém encaixava no seu mundo por muito tempo. Defeitos escondidos nas pessoas eram logo trazidos à superfície. Ele sofria muito com isso. Mudou. Mudou muito. Pela primeira vez na vida sentiu-se só durante a adolescência. Mudou. Mudou muito. O demónio foi rebaixado ao máximo possível. Apareceram sentimentos que anteriormente eram inexistentes e que não tinham fundamento. Amor. Carinho. Ternura. Romantismo. Desenvolveu toda a sensibilidade que sempre tinha escondido. Descobriu que albergava um anjo dentro de si que passou a coexistir com o enraizado demónio. O anjo passou a ter privilégios e apenas este o passou a acompanhar. O demónio aparecia nos momentos de vulnerabilidade. Quando aparecia era devastador. Todo o mal que dantes era descarregado no mundo e nas pessoas era agora canalizado para ele próprio. Doía muito. Sozinho aguentava todas as descargas emocionais. O seu sistema límbico aquecia e ultrapassava a barreira do aceitável. As marcas seriam irreversíveis mas, ninguém pagaria a sua factura. Morreu para que ninguém o pudesse acusar de viver. Percebeu que toda a sua vida dependia de uma fusão. Uma fusão impossível. Esperava alguém que não existia. Se calhar existia mas ele não sabia trazê-la para a sua vida. Ele não sabia esperar. Ele via num dia o que os outros demoravam semanas ou meses e não podia esperar. Ninguém o entendia. Pensavam que precipitava as coisas quando na verdade, apenas tinha um campo de visão mais abrangente. A sua sensibilidade agora extraordinária forçou-o a entrar num mundo vazio, solitário, de sobrevivência, reforçado por ambientes tristes, desertos de pessoas. Tudo se complicou. As suas capacidades anteriormente imparáveis passavam a estar agora condicionadas ao amor. Os estudos afundaram. Os negócios afundaram. A palavra de ordem passou a ser a sobrevivência. Ninguém compreendia, nem compreenderá, a razão de toda aquela tristeza, a razão de não poder ler um livro, a razão de não poder estudar e a razão de não conseguir sair de casa e passar um bom momento com os outros, como os outros. As pessoas abandonam-no rapidamente. Com medo que o demónio voltasse, e que a sua avassaladora capacidade de destruição tomasse o lugar do amor no combustível de desempenho das capacidades, aspirou a neurocirurgia. Assim poderia usar a sua sensibilidade do tacto e o resto das capacidades num bom caminho. O amor não existia. As capacidades estavam nos limites. A aspiração passou, apenas, a fazer parte do horizonte. Agora vagueia entre a esperança e a desilusão. Sobrevive. Nasceu.
domingo, outubro 17, 2004
Um Anjo acorrentado a um Demónio II
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2 comentários:
Nasceu. Nasceu para aquilo que antes ignorara, desprezara, atropelara e o perturbara, o magoara, o atacara. Foi alvo daquilo que lhe passara ao lado variadas vezes. Está entre nós e não conhece este lado. Esperança e desilusão. É um novo começo, de uma nova forma. Agora não é demoníaco. Agora está integrado. Agora é um de nós.
Madalena, menina do "lol"
Como queres tu conhecer-me, através da minha janela?? Agora mais do que nunca, sei que não estou à tua altura *********
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